sábado, 17 de novembro de 2007

DSI 2007

Estou em Phoenix, Arizona, para o encontro anual do Decision Sciences Institute. Vou apresentar aqui os resultados preliminares da minha pesquisa. Pelo que deu para ver ontem, temos "empate técnico" - metade são pesquisadores na área de Sistemas de Informações e metade, Gestão de Operações e Logística. Muitos alunos de doutorado vem para cá para procurar emprego, e vou falar mais calmamente sobre isso em outro post. Não é meu caso: todos sabem que assinei um termo de compromisso com o CNPq e tenho que voltar para o Brasil. Isso, por um lado, me deixa menos estressado, e posso ver a competição de fora (e até me divertir um pouco com ela).

São duas horas de diferenca daqui para London, Ontário. Chegamos aqui no hotel 2h30, hora local, e nosso quarto não estava pronto. Então eu e o Manpreet, meu colega, fomos a um Mall próximo e comemos uma pizza (estávamos sem almoço) e compramos agua e comida para armazenar na geladeira do hotel. Para minha surpresa, encontrei uma pizza de batata! Se fosse na Alemanha, ou em Igrejinha, vá lá comer kartofelnpizza, mas nos Estados Unidos... Tive que experimentar e tirar uma foto. Era bem gostosa, pena que peguei um pedaço com muito alho no final da fatia e fiquei com refluxo umas boas 2 horas...

À noite, fui à recepção do Consórcio Doutoral. Conto depois como é o tal de consórcio. Mas ontem havia uma recepção informal, com vinho e "light snacks". O pessoal é bem bacana. Como disse, só tem gente de operações e sistemas. Da janela, dava para ver uma janta ocorrendo lá embaixo, de um outro evento do hotel. Muito bonito. Mas eu comi meia lata de atum, porque nao tinha mais como sair. Meus pés estavam me matando, de ficar tanto tempo em pé ou sentado na classe econômica do avião. Vamos acertar: classe econômica! Que nome sutil para 3a classe... De qualquer maneira, hoje o dia é todo voltado para o Consórcio Doutoral, e assim que conseguir um tempo, passo mais informações.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

A neve do dia 16 de novembro

Hoje, às 5 horas da manhã, quando o Iuri se preparava para ir ao aeroporto, eu dei uma olhada pela janela e exlamei: "Uau! Está tudo coberto de neve!" Estava nevando bastante quando o táxi apanhou o Iuri para levá-lo ao aeroporto. Tirei uma foto às 5h20min. Não ficou muito boa, mas dá para ter uma idéia.
Voltei a dormir e, lá pelas 9h30,
eu tirei outras fotos. A temperatura agora é de - 1 grau C, mas a tendência é de melhorar. Aqui no Canadá parece que vai para 0 (zero) grau pelo meio dia, e depois desce um pouco, ao anoitecer. Para amanhã, a previsão é de nublado, com possibilidades de floquinhos de neve e as temperaturas deverão girar entre - 3 e + 4 graus C.
Já em Phoenix, no Arizona, a previsão do tempo é de muuuuito calor.
Seguem mais fotos:

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Conferências

O Iuri e eu estamos nos preparando para irmos a duas conferências amanhã. Ele vai para o Decision Science, em Phoenix, Arizona, nos Estados Unidos e eu vou para Social Entrepreunership Conference of Waterloo, Ontário, no Canadá.
Começamos a fazer as malas e decidimos olhar a previsão do tempo em cada um desses lugares.
O Iuri precisa estar no aeroporto às 6 horas da manhã e, pela previsão do tempo, vai estar nevando aqui em London. Em Waterloo também deve nevar durante o fim de semana. Já para Phoenix, a previsão é de sol com temperaturas de 28 graus centígrados.
Ou seja, enquanto eu levo casacões, mantas e blusões de lã, o Iuri leva camisas leves, bermudas e chinelos de dedos. Good for him.

Exames na Ivey Business School

Hoje, 15 de novembro, foi meu primeiro dia de trabalho aqui no Canadá. No Brasil é feriado: dia da Proclamação da República, mas aqui no Canadá, como brincou meu irmão, não tem 15 de novembro (risos).
Eu já falei em outro post, que tinha conseguido um número de seguro social canadense, que me permitiria exercer um trabalho remunerado, desde que seja na universidade - afinal de contas, tenho visto de estudante.
O nome do cargo é proctor ou fiscal de exame e minha primeira atuação foi hoje, das 7h15min às 9h30min. O Iuri e eu tomamos o ônibus número dois, às 6h45min, ainda estava escuro e chuviscava um pouco, mas não estava muito frio (felizmente).
Este ano, a Ivey School está inovando seu sistema de exames e, a maioria deles, é respondido através de um canal interno de internet, denominado eZone. Hoje, porém, os exames foram respondidos em papel, mesmo assim, todos os alunos tinham seus laptops ligados e os utilizaram como fonte de pesquisa (a prova foi com consulta aos próprios materiais).
Como as turmas são de, em média, 75 alunos, para os exames, as turmas são distribuídas em diferentes salas. Daí a necessidade da contratação dos proctors. Esses proctors precisam levar seus laptops, que ficam conectados na web para manter contato, por email, com o fiscal chefe e com o professor da turma. O professor fica circulando pelas salas para esclarecer dúvidas dos alunos.
Tudo funcionaou bem hoje, vamos ver como vão ser os próximos exames, nos dias 4, 10 e 11 de dezembro - dessa vez, on line...

9 1/2 semanas...

Em 1986 (ou era 1987), vi no cinema o filme 9 1/2 semanas de amor... Cada vez mais, dizer coisas assim me faz sentir mais velho. Seria como dizer "fui na pré-estréia do Cidadão Kane (1941)".

Era uma história interessante, mas com um final trágico. No fim do filme, a moça descobre que o misterioso rapaz que a havia conquistado era, na verdade, um profissional especializado em conquistar moças, e vender as filmagens de suas cenas íntimas para a indústria pornográfica. Enfim, mais uma obra da paranóia cinematográfica, que vai desde essas coisas mais mundanas até os filmes de terrorismo e espionagem. A moral da história, em todas essas histórias, é que não deve se confiar em ninguém.

Felizmente, a vida não é bem assim. Talvez não vendesse tanto ingresso se virassem filmes, mas as histórias de (quase) todos nós tem mais de confiança, amizade e otimismo do que de traição, maldades e sofrimento.

Faltam hoje 9 1/2 semanas para irmos embora para casa. Ainda tem muita coisa a fazer nesse tempo. Às vezes, nem parece que falta tanto tempo e tem tanto a fazer. Mas é isso mesmo.

Sexta-feira (daqui a 2 dias) vou aos Estados Unidos (Phoenix, no Arizona), apresentar os resultados preliminares da minha pesquisa aqui. Dizia aquela propaganda antiga de cigarro (pô, outra velharia: sou do tempo que tinha propaganda de cigarro no Brasil), os homens se encontram no Arizona. Pois é: para economizar, vou ficar em um apartamento com mais 2 colegas. Parece que pediram uma cama extra. Espero que sim... Não quero voltar de lá falado!

Quando voltar, sigo firme na coleta de dados. Ainda não chegamos na quantidade de informações necessárias para fazer uma boa análise, então temos ainda que ligar para as empresas, convencer gerentes a responder, enfim, todas essas coisas "divertidas" que tem que se fazer para fazer pesquisa com questionários. Cada vez mais pessoas fazem pós-graduação, especialmente doutorado, e tem cada vez mais doutores que precisam pesquisar. Então, as empresas cada vez mais recebem questionários, e os gestores estão cheios de respondê-los ("Tenho vários aqui para responder, não vou responder esse" - disse outro dia desses um ex-possível respondente). Resultado: taxas de resposta declinantes em todos os lugares do globo. Eu estava explicando para o Eddie (marido da Zulma, que tem uma fazenda de produção de leite) mais ou menos assim: imagina que recolhes uma amostra do teu terreno para fazer análises (para determinar correção do solo, adubação, etc.). Se tenho poucas respostas, é como coletar terra apenas de uma parte da propriedade: não há como saber se as informações são representativas da propriedade inteira ou apenas de um pedaço, e errar a análise para todo o resto.

Depois ainda tenho de fazer umas análises desses dados. Essa parte até acho divertida. Tenho uns colegas que chamam "tortura de dados": vai batendo neles até que eles confessem alguma coisa. As vendas não seguem uma distribuição normal? Tira o logaritmo e vê no que dá... e assim vai indo. Tenho uma visão mais lúdica: gosto de brincar com os números. "É brincando que se dizem as grandes verdades" - diz o ditado.

Finalmente, ainda vou produzir um relatório para as empresas que responderam ao questionário. Tem ainda que sobrar tempo para comer, dormir e namorar a Nara... serão 9 1/2 semanas de muito, mas muito amor mesmo. Sim, porque ela tem que me amar muito para me agüentar. Fico impossível quando tenho que fazer esse monte de coisas em tão pouco tempo.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Negociações em Toronto

Desde que eu estive em Woodstock, em setembro passado, tenho mantido contato com a Carol Anne, da LHO (Ontario Large Herd Operators), para intermediar a visita técnica ao Brasil, de uma delegação de fazendeiros de leite ligados a essa organização.
Durante as palestras sobre sucessão familiar nas fazendas de leite, em Woodstock, o mestre de cerimônias anunciou que o grupo estava planejando uma visita à América do Sul para 2008, incluindo o Brasil.
Como eles ainda não tinham um roteiro definido, tratei de fazer contatos com alguns brasileiros que, na minha opinião, poderiam ajudar. Mandei alguns e-mails e obtive resposta da Manuela Gama, da Láctea Brasil, de São Paulo.
A LácteaBrasil é uma ONG que visa divulgar o leite e seus derivados a fim de aumentar o consumo e as vendas desses alimentos. http://www.lacteabrasil.org.br/
A Manuela imediatamente me informou o endereço eletrônico de outra brasileira: a Leila Gomes, que é assessora de comunicação da cooperativa Castrolanda, de Castro - Paraná.
A Castrolanda é a organizadora de uma importante feira brasileira de laticínios: a Agroleite, realizada em agosto, no Paraná.
O mais interessante é que as duas: Manuela e Leila estavam se preparando para acompanhar uma delegação brasileira com mais 51 pessoas em uma viagem para o Canadá. A delegação viria para visitar duas importantes feiras: uma em Montreal - Quebec e outra em Toronto - Ontário.
A Royal Agriculture Winter Fair de Toronto elas visitariam entre os dias 7 e 10 de outubro. E lá fui eu, de maleta e sem cuia, para Toronto, no dia 8 para encontrá-las no dia 9.
Saí de London às 10h30min, estava frio (entre 2 e 3 graus C) e chuviscando um pouco. Quem leu meu post anterior, sabe que tinha nevado uns 6 floquinhos no dia anterior - risos.
No caminho para Toronto, entre Ingersoll e Waterloo, enfrentamos uma tempestade de neve e os campos, árvores, telhados e carros estavam branquinhos, acho que nevara a noite toda naquela região.
Minha máquina fotográfica estava na frasqueira no compartimento interno de bagagem, mas o acesso estava meio difícil, então pensei: "vou ficar quietinha só olhando a paisagem e tiro as fotos em Toronto" - imaginei como a Manuela estaria feliz por realizar seu sonho de ver neve de verdade! Engano meu, em Toronto o clima estava igual a London, frio e chuviscando (chuva, não neve).
Good for me (heheehe).
Fiquei na casa dos amigos Júnior e Sheila e, sexta-feira de manhã, fui visitar a Royal Fair. Tinha marcado encontro com as brasileiras para às 14 horas, no hotel onde estavam hospedadas.

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Sobre a feira:

A feira estava bonita, totalmente indoor (dentro do centro de exibições de Toronto) devido à época do ano em que se realiza. Normalmente, já deveria estar nevando muuuuito nessa época, mas, felizmente, não está.
Confesso que me decepcionei um pouco, pois a propaganda mostrava uma das maiores feiras do mundo. Eu até me atreveria a dizer que a Expointer é mais bonita...

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Encontro com as brasileiras:

Nós não nos conhecíamos pessoalmente, então eu fiz uma breve auto-descrição e disse que estaria com um casacão marrom com capuz de pelinhos...
Cheguei um pouco antes das duas horas e fiquei esperando no saguão do hotel. Aivstei duas moças chegando no hotel e elas logo me identificaram (descrição perfeita). Ufa!!! pude tirar o casacão - estava morrendo de calor, pois todos os ambientes internos são climatizados.
A Manuela não estava se sentindo muito bem e foi para o quarto e eu fiquei conversando com a Leila por uma hora e meia.
Tudo acertado entre nós duas: ela tem o ambiente perfeito para receber os fazendeiros canadenses. Só falta convencê-los disso. (risos) Muitos fazendeiros aqui de Ontário são de origem holandesa e a região de Castrolanda, no interior de Castro também é uma colônia holandesa.
Passei essas informações para a Carol Anne, da LHO, e estou aguardando o resultado da reunião do comitê organizador da viagem à América do Sul.

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Contatos na Austrália:

Depois de nos despedirmos, a Leila subiu para seu quarto e eu fiquei vestindo meu casacão marrom para enfrentar o frio e o chuvesqueiro da rua. Eu tinha deixado a bolsa, frasqueira e casaco sobre uma mesinha ao lado do sofá e, quando fui apanhá-las, uma senhora muito simpática, que estava sentada ao lado de sua filha, me perguntou se eu falava inglês (provavelmente me ouvira falando em português com a Leila). Respondi que sim e ela tratou de perguntar se eu tinha ido à feira, o que tinha achado e tal... Ela tinha um estranho sotaque (olha quem falando - risos) e eu perguntei de onde ela era: "Austrália" - respondeu ela, toda sorridente. Conversamos um tempo, ela me disse que ela e o marido têm uma fazenda de leite em Melbourne. Eu contei a ela que meu cunhado está fazendo doutorado em Sidney e que minha cunhada e sobrinho estão indo para lá nos próximos dias. Trocamos cartões de visita e ela disse: "Se você tiver alguma dúvida sobre fazendas de leite, manda um e-mail que nós responderemos".
Se o Iuri e eu formos visitar nossos parentes (irmã, cunhado e sobrinho dele) na Austrália, já tenho uma fazenda de leite para conhecer lá.

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A volta para casa: (um fato engraçado)

Dessa vez eu fui sozinha para Toronto, pois o Iuri anda ocupadíssimo com a compilação e análise dos dados da sua pesquisa. Mas ele me deu um ticket de metrô que tinha sobrado de sua ida à Toronto, em junho, para um seminário na Universidade de York.
Perto do hotel onde as meninas estavam hospedadas havia uma estação do metrô e eu desci as escadas rapidamente e me informei no terminal, qual a direção que deveria tomar para ir até o terminal de ônibus. Mapa na mão, eu apontava e dizia que queria ir até esse terminal.
Um senhor me disse para descer as escadas, "logo ali à esquerda" e que lá em baixo, eu veria um sinal indicando o caminho para o terminal de ônibus. Cheguei lá em baixo e logo vi uma porta de vidro com o sinal indicando o caminho para o terminal de ônibus. Atravessei a porta e não vi nenhum trilho de metrô - eu pensava que iria de metrô até o terminal de ônibus - mas só via lojas, cafeterias, bancos, etc. Me dei conta que eu estava na parte subterrânea de Toronto, onde todas as lojas da superfície têm suas extensões. Voltei um trecho e avistei outro terminal do metrô. Atordoada, perguntei ao vendedor de tickets, qual o metrô que eu deveria tomar para ir ao terminal de ônibus. Meio irritado, ele me disse: "Vá caminhando, são somente duas quadras"...
Envergonhada, eu agradeci e segui as placas por dentro da cidade subterrânea. Aproveitei para fazer um lanche e subi as escadas, entrando diretamente no terminal de ônibus. Trouxe de volta o ticket do metrô. Acho que vou levá-lo de recordação para o Brasil.
Minha passagem era para as 19h20, mas consegui antecipar para 16h30 e o ônibus estava quase saindo quando eu entrei. Tirei umas fotos de Toronto, de dentro do ônibus. Acho que só volto para Toronto para tomar o avião de volta ao Brasil, em 18 de janeiro.

Fotos dessa viagem de negócios a Toronto estão em:

http://picasaweb.google.com/naram.muller/RoyalFairEmToronto

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Primeiros floquinhos de neve

Ontem, terça-feira, foi um dia chuvoso e com vento e, por alguns segundos, até caíram uns 6 floquinhos de neve (risos).

Hoje de manhã, quando levantamos às 7h30min, o Iuri se arrumava para ir para a universidade, enquanto eu preparava o café. Resolvi abrir a persiana para ver como estava o tempo lá fora (aqui dentro estava uns 20 graus centígrados) e fiquei impressionada: estavam caindo floquinhos de neve, e os carros no estacionamento já estavam começando a acumular neve. Chamei o Iuri para ver e fui tirar umas fotos do telhadinho do nosso prédio, que cobre o andar térreo e podemos ver através da janela do nosso escritório (foto à esquerda). Também fotografei a famosa casa do outro lado da rua, que em março, estava coberta de neve (foto à direita). Pelas 10h30min da manhã, o sol já brigava com os floquinhos, que insistiam em cair, mas eram derretidos ao atingir o solo. A temperatura atual é 2 graus centígrados (na rua) e a previsão é de chuvas finas à tarde, sem neve. Segundo a previsão do tempo, amanhã de manhã pode continuar nevando levemente e a temperatura deve ser de -1 grau centígrado, como foi hoje cedo.

E amanhã eu vou de ônibus para Toronto a fim de encontrar uma delegação brasileira (relacionada à cadeia produtiva do leite, é claro) e visitar a Feira de Agricultura de Inverno - Royal Agriculture Winter Fair - http://www.royalfair.org/ - que está sendo realizada naquela cidade.
A Manuela, da Lácteabrasil - São Paulo, que faz parte da delegação brasileira me disse que nunca vira neve e que estava torcendo para nevar durante sua estada no Canadá. Sorte dela!
Voltarei na sexta-feira à noite e aí eu conto como foi mais essa aventura de Nara Müller no Canadá - com neve ou sem neve.
E tem gente que pensava que eu não teria o que fazer por aqui... (risos).

Domingo, 4 de novembro: O Lago Erie

Domingo passado o Zenon nos apanhou por volta do meio dia para conhecermos a região do Lago Erie onde fica a famosa praia de Port Stanley. O dia estava frio, mas ensolarado. No caminho, uma parada em St. Thomas para tomar um café to Tim Hortons (nenhum canadense, e estou nos incluindo nesse rol, sobrevive sem um café do Timmi's por dia ) - risos.Qualquer hora eu falo mais sobre essa fantástica rede canadense de cafeterias que é o Tim Hortons.

Depois seguimos para Port Stanley (uauu!) Que lugar lindo, parece o paraíso, conforme mostra a foto no início do post. Mais informações sobre Port Stanley se encontram em:

Almoçamos no Mackie's, que é um restaurante à beira da praia, na areia mesmo... O prédio é cercado de janelões envidraçados, que permitem aos clientes, apreciarem a beleza da praia. Vejam o Iuri na frente do restaurante - foto ao lado.

Passeamos pela beira da praia, fizemos vários vídeos e fotos e seguimos para conhecer a cidadezinha de Port Stanley.


Tem um rio que divide a cidade - eu não consegui descobrir o nome do rio - e desemboca no Lago Erie. Tem um porto cheio de barcos de pesca atracados e tem também uma estação de trem à beira do rio. É uma cidadezinha muito lindinha, com opções de lazer e gastronomia para todos os gostos.

Depois fomos visitar uma estranha floresta (acho que eu teria medo de caminhar por lá, à noite - hehe). Chama-se Winter Wheat (trigo de inverno) e trata-se de uma pequena fazenda com um arvoredo fechado - nessa época há folhas secas no chão e fazem um barulhinho quando a gente caminha sobre elas - tem várias estatuetas e outras curiosidades que só os artistas podem nos proporcionar. Descobrimos que a proprietária da fazenda Winter Wheat é uma artista plástica, faz pinturas em tela e vende cópias em formato de cartões, calendários e quadros, lá mesmo na própria loja da fazenda. A loja aparece atrás de mim, na foto à esquerda. Tudo é decorado com ferramentas e louças antigas que eram usadas nas fazendas, enfim... parece um mundo de sonhos. A foto à direita até fala desses sonhos (dream).
No final deste post, como de costume, está o endereço para acessar nosso álbum de fotos e vídeos do passeio completo.
Visitamos uma loja de velas, que segundo o Zenon, é conhecida e visitada por pessoas de todo o país. Vimos muitas lindas e perfumadas velas, castiçais de diversos modelos e tamanhos e muita decoração natalina.
No final da tarde, pelas 17 horas já estava escurecendo (domingo mudou o horário e antecipamos em uma hora os relógios aqui em Ontário), e fomos a um outro lugar paradisíaco, também às margens do Lago Erie e tivemos oprtunidade de registrar em várias fotos, o pôr-do-sol sobre o lago. O frio já estava bem mais intenso e dá para ver pela minha touqinha canadense.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Visita à Associação dos Produtores de Leite de Ontário

No dia 2 de novembro, eu fui à cidade de Mississauga, onde está localizado o escritório central da Dairy Farmers of Ontario - DFO (Associação de Produtores de Leite de Ontário). Eu tinha horário marcado com o diretor assistente de comunicação, sr. Bill Mitchel. O Iuri foi junto comigo, como motorista, fotógrafo e meu assistente de pesquisa (risos). Levou um gravador MP3 e gravou toda a entrevista para que eu não precisasse ficar anotando tudo que o sr. Mitchel dizia.

Ao sairmos de casa pelas 9 horas da manhã, havia geada sobre as gramas e folhas caídas das árvores. Estava -1 grau centígrado e caminhamos uma quadra até a parada de ônibus. De ônibus fomos até a Budget (uma locadora de carros) e pegamos um Toyota Yaris que eu havia reservado pela internet.
Fomos por um caminho alternativo, pois queríamos evitar o intenso tráfego da Highway 401. A viagem foi muito tranqüila, passamos por várias cidadezinhas, fazendas e paisagens lindíssimas, conforme fotos no webalbum: http://picasaweb.google.com/Nara.Maria.Muller/ViagemAMississauga

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A entrevista:

Chegamos à sede da DFO, uns quinze minutos antes da entrevista e o sr. Bill Mitchell nos atendeu um pouco mais cedo do que o combinado. Muito atencioso, ele nos levou ao refeitório da DFO e nos ofereceu café. Depois fomos conduzidos à sala de reuniões, onde duas pastinhas com farta documentação e materiais de divulgação da DFO estavam à nossa disposição sobre a mesa.
Eu já tinha estudado tudo o que pude, através do site da DFO: http://www.milk.org/corporate/view.aspx?content=AboutUs/OurOffices - e estava com meu roteiro de perguntas à minha frente. O sr. Mitchell pediu que eu fizesse uma breve leitura do meu roteiro, a fim de que ele pudesse entender o que eu realmente queria saber.
Então eu fiz as apresentações, perguntei se podia gravar a entrevista e o Iuri ligou seu MP3.
O sr. Mitchell começou a contar a história da DFO, suas finalidades, como funciona o relacionamento dos produtores de leite com a associação.
Eu perguntara se os produtores se sentiam "donos" da DFO, uma vez que minhas experiências com cooperativas e cooperados me mostraram que nem sempre os sócios se dão conta de suas responsabilidades e direitos. O sr. Mitchell disse que aqui eles são donos e agem como tal. A DFO conta com 4800 associados que, literalmente, mandam na associação.
Na verdade, todos os produtores de leite do Canadá são obrigados por lei a pertencer a uma organização como a DFO, por exemplo. Todas as províncias canadenses têm suas próprias Dairy Farmers of ... (Ontário, Quebec, Alberta...). Segundo o sr. Mitchell, outros setores da agricultura e pecuária canadense também possuem suas próprias associações. É importante lembrar que o leite é o principal produto agropecuário de Ontário.

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A organização da DFO

A principal finalidade da DFO é mercadológica, ou seja, vender o leite produzido pelos fazendeiros de Ontário. A DFO, como representante legal dos produtores de leite de Ontário, é encarregada de discutir preços com o governo, com os próprios produtores, com as indústrias e com os varejistas de produtos lácteos da província. Para isso, o primeiro passo é escolher um grupo de fazendeiros bem sucedidos, verificar seus custos e, a partir daí, estabelecer um preço que vai ser negociado com os demais setores (governo, indústria e varejistas) e o preço valerá para todos os produtores de leite de Ontário.
Outra atribuição da DFO é o transporte do leite desde a fazenda até as 72 indústrias que processam a comodity. Para isso, a DFO contrata agências de transportes que se encarregam de fazer alguns exames preliminares e colher amostras em todas as fazendas, antes de coletar o leite dos tanques de refrigeração. As amostras são entregues na sede central da DFO e encaminhadas à Universidade de Guelf, onde são feitos exames de laboratório.
A DFO revisa, aproximadamente uma vez por ano, os containers dos caminhões de transporte de leite, verificando as questões de higiene, as réguas de medição, etc. Segundo o sr. Mitchell, particamente inexistem inadequações nesse processo. Qualquer irregularidade implica em sérias penalidades e isso evita a sua ocorrência.
Para operacionalizar todas essas atribuições numa província tão extensa como Ontário, a DFO é composta de 6 divisões: Comunicações e Planejamento, Serviços Econômicos, Finanças e Administração, Sistemas de Informações, Marketing, Logística e Produção. Essas divisões funcionam na sede central da DFO, em Mississauga. Além dessa sede central, a DFO possui mais 4 escritórios regionais, apenas para alguns atendimentos, e, dependendo da abrangência das questões apresentadas, estas demandas são encaminhados à sede central.
Além disso, a DFO tem 12 representantes em sua diretoria, que representam os 60 condados (espécie de regiões) em que a província de Ontário é dividida. Cada um dos 12 representantes, representa os produtores de leite de 4 condados. Mensalmente, a DFO têm reuniões de diretoria e os representantes replicam os assuntos tratados, as dúvidas levantadas e busca sugestõs, em reuniões com os fazendeiros dos respectivos condados que representam.

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Pré-requisitos para atuar no setor de produção de leite:

Eu perguntei ao sr. Mitchell, o que deve fazer uma pessoa que queira produzir leite em sua fazenda e como funciona o sistema de quotas do qual eu tinha ouvido falar.
Segundo o sr. Mitchell, o negócio funciona assim:
O fazendeiro precisa obter uma licença para ser produtor de leite e essa licença é concedida pela DFO, mediante alguns pré-requisitos que incluem comprovante de endereço da fazenda, número da conta bancária do fazendeiro e a previsão de data para o início das operações.
De posse dessa licença, o produtor providencia toda a estrutura necessária para a produção de leite, incluindo a compra de quotas que limitarão a quantidade de leite a ser vendido e, conseqüentemente, o número de vacas que ele deverá ter em sua fazenda. O sistema de quotas funciona assim:
- O potencial produtor de leite precisa ir a uma espécie de "bolsa de quotas" e tentar adquirir um número que lhe pareça suficiente e pelo que ele puder pagar, dependendo ainda, da disponibilidade de quotas disponíveis no mercado.
- Cada quota corresponde a um peso X de gordura do leite que o fazendeiro pretende vender. Por exemplo: se ele pretende vender X litros de leite por dia, com aproximadamente 200 kilos de gordura, ele deverá comprar 200 quotas.
- Depois é só calcular quantas vacas ele precisa ter em lactação para manter essa quota e tratar de adquirir seu plantel de vacas holandesas (é a raça preferida pelos canadenses).
- A partir do início das operações (já prevista ao adquirir a licença), um fiscal da DFO fará, sem aviso prévio, uma visita para averiguar se tudo está funcionando adequadamente.

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Controle da atividade leiteira pela DFO:

Como eu já falei no início do post, de todo o leite produzido em cada fazenda, o motorista do caminhão de coleta colhe uma amostra, que é posteriormente encaminhada à Universidade de Guelf, para análise. Cada amostra é lacrada com um código de barras que indica em que fazenda o leite foi produzido e coletado. O código de barras impede que os técnicos do laboratório conheçam a procedência da amostra, evitando qualquer possibilidade de manipulação deliberada dos resultados. Os resultados são enviados para o computador geral da DFO e lá ficam registrados. Cada produtor tem uma senha para acesso ao sistema e pode verificar os resultados do leite produzido e entregue a cada dia. (É importante mencionar que os exames das amostras de uma mesma fazenda não são realizados diariamente, seguindo uma seleção aleatória, feita pelo computador central da DFO).
Se o leite produzido numa fazenda for considerado inapropriado para uso, o fazendeiro deverá pagar uma multa, e se ele for responsável pela contaminação do leite de outras propriedades, coletado num mesmo container, esse produtor também deverá pagar o valor correspondente à produção dos demais. Assim, a DFO não é prejudicada com o pagamento do leite descartado e os produtores que tiveram o leite contaminado não deixarão de receber o valor correspondente à produção do dia. Além disso, o produtor que causou o problema, certamente vai procurar uma solução imediata para que isso não se repita. (Aqui a lei pega).
Conforme as declarações do sr. Mitchell, situações de problemas com a qualidade do leite são raríssimas, quase inexistentes.
A DFO também tem sob sua responsabilidade o controle da quantidade de gordura produzida e entregue por cada fazendeiro, verificando se as quotas estão sendo respeitadas.
Se, eventualmente, o produtor não cnseguir atingir a quota, ou se ultrapassar a sua quota diária, os valores superiores ou inferiores ficam registrados, podendo ser compensados em até 20 dias. Caso a diferença persista, o fazendeiro é obrigado a pagar uma multa. Ou seja, o fazendeiro precisa controlar a produção de gordura do leite de seu rebanho diariamente, e tentar encontrar alternativas para controlar as variáveis e equilibrar esse volume com o número de quotas que tem.
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A volta para London:
Saímos da DFO pelas 17 horas e tomamos o caminho de volta para casa. Pelas 18h30min já estava escuro e decidimos parar num restaurante de beira de estrada para jantar. Eu tinha lido na fachada do restaurante que eles tinham steaks (filé, ou bife) e como gaúchos saudosos daquele bom pedaço de carne vermelha, decidimos ficar por ali mesmo. E não nos arrependemos, foi um dos nossos melhores jantares em restaurantes canadenses.
Dali em diante, decidimos voltar pela Highway 401, porque estava muito escuro e já estávamos meio perdidos naquelas estradinhas de tantas esquerdas e direitas...
Chegamos em casa e a primeira coisa que fizemos foi plugar o MP3 no computador para ouvir a gravação e, para nossa surpresa, só tínhamos a segunda parte da entrevista gravada.
A primeira parte se perdeu quando o Iuri trocou a bateria do brinquedinho... Bom, ainda bem que temos boa memória e bastante documentação complementar da DFO para tirar as dúvidas - hehehe!
***
FIM

domingo, 4 de novembro de 2007

31 de outubro = Halloween

A primeira vez que eu ouvi falar em Halloween foi numa aula de inglês nos idos anos de... nem lembro mais (risos).

Para muitas pessoas, inclusive para mim, Halloween sempre teve o significado de Festa das Bruxas. Na noite de 31 de outubro, supõe-se que bruxas e outros seres míticos andem soltos ao nosso redor concedendo favores ou pregando peças, dependendo da receptividade de cada um de nós. Muitas comunidades brasileiras já aderiram a essa tradição e já se pode escolher em qual festa das bruxas queremos ir.

Como estamos na América do Norte, o Iuri e eu pudemos presenciar as comemorações da festa de Halloween na casa de nossos amigos Zenon e Mary-Anne. Enquanto jantávamos com nossos amigos, a campainha da casa soou várias vezes e tivemos a oportunidade de recepcionar crianças desde 2 até 12 ou 14 anos de idade. As menores vinham acompanhadas de seus pais, todos usando fantasias e até um cão acompanhou uma das famílias. A frase a ser dita pelos visitantes é: "Treat or Trick" (gostosuras ou travessuras), mas as crianças pareciam meio tímidas e a frase nem sempre saía - talvez porque não esperassem encontrar tanta gente os esperando (inclusive um estranho pato) foto ao lado.

Mary-Anne me ensinou a frase completa: "treat or trick, smell my feet, give me something good to eat" (gostosura ou travessura, cheire meus pés, dê-me algo bom para comer).

Tudo nos pareceu tão inocente, que ficamos curiosos para saber qual o verdadeiro significado dessa tradição "norte americana". Encontrei uma interessante explicação na wikipedia. Descobri que não é uma "tradição norte americana", mas uma festa pagã, celebrada pelos povos celtas entre os anos 600 a.C a 800 d.C. A festa tinha outro nome: Samhain, que em celta significava "o fim do verão". Segundo a wikipedia, o fim do verão tinha um significado semelhante ao ano novo e os celtas acreditavam que nesse período se estabelecia uma relação mais tênue entre o mundo material e o não material. O festival Samhain era comemorado entre os dias 30 de outubro a 2 de novembro. A tradição foi trazida para a América do Norte pelos imigrantes irlandeses e ali foi adaptada à cultura local. Segundo a wikipedia, a igreja católica não aceitava essa festa, ligando-a ao culto a bruxarias. A história do Samhain ou Halloween pode ser encontrada no endereço: http://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_das_bruxas

***

Acho que cada um de nós pode interpretar a festa de Halloween ao seu jeito. Pode ser que as crianças, que vão de casa em casa pedindo doces ou aplicando uma travessura sejam anjos (seres não materiais), que levam alegria aos lares da vizinhança. Quem sabe os vizinhos que abrem suas portas e oferecem doces às crianças também sejam anjos e, pelo menos durante essas horas, o mundo dessas pessoas seja um pouco menos sofrido e Deus sorria porque a paz e a felicidade estão sendo compartilhadas...

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Uns dias antes do Halloween, presenciamos uma estranha solenidade na Universidade de Western Ontário: o lançamento de uma grande abóbora, do alto de um guindaste, no centro de um gramado. Era uma atividade dos alunos da Ivey para arrecadar fundos (não se sabe para que finalidade).

Na solenidade de lançamento dessa abóbora gigante, uma frase escrita numa faixa também pode levar à crença de que o Halloween é um momento de compartilhar, de confraternizar. Estava escrito na faixa: Poverty History - A história da pobreza - e a mensagem me pareceu mesmo ligada ao compartilhar. A imensa abóbora significava a abundância e ela foi lançada e quebrada em tantos pedaços que poderiam ser distribuídos a muitas pessoas menos afortunadas.

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Fizemos várias fotos e vídeos ao longo do mês de outubro, registrando decorações de casas, produtos oferecidos nas lojas, da recepção dos pequenos na casa de Zenon e Mary-Anne, e da imensa abóbora lançada do alto do guindaste, na Universidade de Western Ontário.

Fotos e vídeos estão no webalbum: http://picasaweb.google.com/Nara.Maria.Muller/Halloween

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Leite adulterado

Desde que larguei a mamadeira, quando ainda era bem pequenina, abandonei também o leite - não suportava tomar leite na xícara com aquela nata toda por cima. Por outro lado, eu acho lindo ver alguém tomando um copo de leite, ver aquele "ouro branco" escorrendo da jarra para o copo. Meus filhos foram criados com bastante leite, afinal de contas, é um alimento completo e muito saudável. Será?

Há dois anos eu tenho me dedicado ao estudo da gestão da produção leiteira, através de um programa de desenvolvimento sustentável que havia em minha cidade. Aqui no Canadá, venho participando de congressos relacionados ao leite e agronegócios e visitado fazendas de leite (já escrevi vários posts sobre o assunto).
Em Taquara, aqueles amigos que me conhecem há mais tempo e sabem da minha "aversão" a tomar leite, brincam comigo dizendo: "Qualquer dia desses nós vamos ver uma propaganda da Nara tomando um copo de leite e fazendo aquela carinha de felicidade!" Eu sempre respondo que eu gosto muito de leite, mas como um "negócio" que deve gerar lucro. O máximo que eu consigo é tomar um yogurtezinho de vez em quando, como mostra a foto ao lado, tirada durante o Congresso Panamericano do Leite em Porto Alegre, em junho de 2006. (risos)

A história nos conta que no passado a maioria dos produtores de leite adulterava o produto, adicionando água para aumentar a quantidade vendida. De vez em quando ainda se ouve relatos sobre o assunto, mas acredito que isso tenha se reduzido bastante devido à fiscalização intensiva que é feita pelos agentes de segurança alimentar em suas diversas instâncias. Será?

Em agricultura e pecuária, não sei se por ironia do destino ou por maldosas intenções, sempre que um produto começa a melhorar em qualidade e começa a ter mais peso no PIB, alguma coisa acontece para acabar com a alegria dos produtores.

De todos os produtos agropecuários, me parece que o leite sempre é o menos valorizado e é o que passa por crises mais freqüentes. Agora surge esse escândalo de adulteração de leite com soda cáustica, água oxigenada e sabe-se lá quantas coisas mais. Em princípio duas cooperativas são apontadas: a Casmil e a Coopervale, ambas de Minas Gerais. Os funcionários das cooperativas acusadas afirmam que os fiscais faziam vistas grossas para a fraude - como pode?

Como é que a gente vai conseguir criar uma imagem séria do nosso país e dos produtos nele produzidos, se gentinha como essa anda solta por aí adulterando nossos alimentos? Nós mesmos não podemos confiar no que comemos ou bebemos! Como ter certeza, nos próximos dias, de que o leite que estamos dando aos nossos filhos não contém soda cáustica?

Quando eu digo que gosto muito de leite como um negócio que deve gerar lucro, não aceito a hipótese do lucro a qualquer preço, principalmente quando envolve a saúde humana.

Na sexta-feira, dia 2 denovembro, eu vou conhecer a sede do escritório principal da Associação dos Produtores de Leite de Ontário e vou entrevistar o diretor de comunicação dessa organização. E se ele me perguntar sobre o escândalo da soda cáustica? Vou tentar responder: "Sempre tem gente má envolvida em qualquer setor de negócios ou na política, mas nem todos são assim..."

Eu ainda acredito nisso, mas vocês acham que eu vou convencê-lo? Não sei... Vou sentir vergonha, com certeza.

Veja essa reportagem:

sábado, 27 de outubro de 2007

Honours

Uma coisa que eu não conseguia entender era o tal de "honours", que é uma instituição típica nas universidades americanas e canadenses. Nós temos, no Brasil, "formar-se com distinção", que é quando o aluno atinge certos critérios de excelência (em geral, suas notas ao longo do curso). Quando estávamos fazendo as disciplinas do doutorado, tínhamos um hábito bacana (não estou usando o plural majestático, era um hábito de quase todos): quando íamos moderar a discussão de uma pesquisa, antes fazíamos uma breve explicação de quem era o autor da pesquisa, seu currículo, outras pesquisas importantes que ele havia feito, etc. E aparecia o tal do "honours" na graduação dele. Eu achava que era a distinção.

Quando cheguei no Canadá, comecei a me dar conta que honours não é distinção: é como se fosse um tipo diferente de curso. Mas ninguém me dava uma explicação satisfatória. Para aumentar ainda mais minha confusão, a graduação em administração na Ivey se chama HBA (honour in business administration) e dura dois anos. Estava feito o embrulho.

Ontem conheci um professor brasileiro que trabalha no departamento de economia da Western. Ele é formado pela PUC-RIO e fez mestrado lá mesmo, e depois foi fazer doutorado na Pennsylvania (quase perguntei para ele dos red maples, hehehe). Eu tinha uma dúvida bem pontual que fui perguntar para ele (explico depois em outro post), mas batemos um longo papo, e acabei descobrindo o que é o tal de honours.

Funciona assim: o aluno entra na universidade e pode obter um diploma universitário em até três anos. Sai formado e pode procurar trabalho, como economista, psicólogo, geógrafo ou qualquer outra coisa. Detalhe: parece que é comum, no Canadá, um salário inicial de 30 mil dólares por ano para alguém formado, a não ser que seja formado na Ivey. Tem alunos aqui que saem da graduação ganhando 75 mil/ano. Isso talvez explique a procura pela Ivey.

Bom, mas o aluno, dependendo de suas notas, pode optar por ingressar no honours. Ou seja, os melhores alunos tem a opção de fazer um curso de graduação "diferente", dentro da mesma universidade. O honours então dura 4 anos. E aí tem o lado perverso da coisa. Se o menino que faz graduação (sim, eles são bem novos), com seus 19-20 anos, optar por não fazer o honours ("quero me formar logo e ir trabalhar"), está com seu futuro profissional bastante comprometido. Para trabalhar no governo, por exemplo, muitas vezes eles exigem que o candidato tenha mestrado/doutorado. Só que os programas de pós-graduação, em geral, só aceitam quem fez o honours. Ou seja, quem não fez o honours aqui fica com um diploma "de segunda classe", emitido pela mesma universidade que forma os mais destacados profissionais.

Na Ivey, não existe o "não-honours". Todo mundo que faz a graduação faz o HBA, que é como se fosse uma marca registrada da Ivey. O honours em administração, por exemplo, da HEC Montreal, não se chama HBA. Para entrar no HBA, o aluno tem que ter 2 anos em outro curso universitário qualquer, até de outra universidade, e aí se forma em 2 anos de curso. Disse esse professor da economia que os melhores alunos dele (ele ministra microeconomia para o segundo ano do curso) vão tentar o ingresso na Ivey, que é super-competitivo. Ou seja, pode ter 2 anos de qualquer curso, mas provavelmente se não foi um bom aluno de economia na Western, as chances caem bastante... Isso também explica um pouco como a Ivey consegue fazer um curso exclusivamente com estudos de caso: as disciplinas teóricas foram todas feitas fora da Ivey. Eu ficava imaginando, antes de vir para cá, como o aluno podia aprender microeconomia ou matemática com estudos de caso, já que a Ivey é conhecida por ensinar exclusivamente com esse método. Descobri: eles não oferecem disciplinas básicas, o aluno tem que vir com esse conhecimento já previamente apropriado.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Encontrando problemas ambientais

Quando cheguei aqui, comecei a procurar disciplinas para fazer. Não há porque fazer isso, por dois motivos. Primeiro, eu já tenho os créditos necessários para conseguir o título de doutor, e a estratégia mais adequada para chegar ao fim dessa tortura é a QSP (quantidade suficiente para...), ou seja, fazer apenas o necessário e não o desejável. O desejo de todo mundo que faz doutorado é aprender tudo o que puder... o que não é possível. Segundo, estou aqui como visitante, o que não me habilita a cursar disciplinas.

Mas uma coisa é a regra e outra coisa é ser brasileiro. Eu sempre tive vontade de cursar uma disciplina de estatística em um doutorado daqui. Não que as disciplinas no Brasil sejam ruins ou fracas. Apenas tem outra abordagem para a coisa. Eu queria ver o outro modo de ensinar e aprender deles.

Tentei por tudo encontrar uma disciplina de estatística por aqui. Não que as disciplinas mais teóricas não sejam importantes. Mas posso baixar os artigos ou ler na biblioteca e tirar minhas próprias conclusões. Não encontrei nenhuma disponível: na sociologia, o professor vai entrar em sabático, na psicologia, eles só vão oferecer no inverno, na economia, eles estão com a turma cheia (20 alunos), e assim por diante... Meio que por acaso, me mandaram uma oferta de uma disciplina de "estatística espacial", pasmem, na faculdade de estatística. Não queria fazer aulas na estatística por uma série de motivos: minha formação matemática não é tão sólida assim (a última integral de que lembro foi uma farinha integral que usei para fazer pão...), e os estatísticos muitas vezes "babam na gravata", quer dizer, têm um conhecimento tão avançado que nós, meros mortais, não conseguimos aplicar em absolutamente nada de útil... enfim, nossos probleminhas banais de negócios.
Fui lá, muito humildemente, e pedi para assistir como ouvinte. Os professores deixaram, e lá estou eu indo às aulas. São três alunos: dois da matemática aplicada e eu, patinando para entender a notação matemática... não lembro direito nem como se chamam as letras gregas (uma heresia para eles).

Primeiro exercício: o professor pegou uma base de dados de árvores em três estados americanos (Pennsylvania, Virginia e West Virginia). Eu fiquei com a Pennsylvannia. Nossa missão: encontrar padrões irregulares de ocorrência de maples vermelhos (Acer rubrum). Essa árvore tinha uma incidência razoavelmente baixa nos estados americanos do norte antes da colonização européia, e agora têm incidências mais altas. No meu estado, o red maple até era a espécie dominante, mas tinha 20% de incidência. Hoje é 22% de todas as espécies. Empregamos uma técnica chamada spatial scan statistics (estatística de varredura espacial) para identificar áreas onde a ocorrência da espécie é anômala. Depois de obtidas essas áreas, pudemos utilizar um sistema de informações geográficas (GIS) para sobrepor outros mapas e tentar imaginar o que estava acontecendo. Eu achei, por exemplo, uma estranha coincidência entre áreas de mineração de carvão no estado, e zonas de preservação ambiental, com essa ocorrência fora do normal.

Ainda estou engatinhando nesse tipo de técnica, mas achei incrível o poder que ela tem para identificar "focos" de fenômenos estranhos. Bem, ela foi desenvolvida inicialmente para identificar focos de câncer... as aplicações em outras áreas do conhecimento são inúmeras: é só ver o site http://www.satscan.org para ficar de queixo caído: criminologia, estudos de desenvolvimento regional, na área florestal, da saúde, meio ambiente.

Mais uma ferramenta para a maleta... Talvez eu não use essa na tese, mas quem sabe um dia... talvez nem sempre a QSP seja a melhor estratégia. Talvez exista vida depois do doutorado.

***

Abaixo, um dos mapas que obtive com a técnica. Dá para ver bem claramente uma área ovalada, ao norte do estado, onde a ocorrência é anormal. Outras análises que eu fiz encontraram focos menores, em que a ocorrência de red maple chega a 44%, o dobro da média estadual.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Blogs ambientais

Hoje eu entei no blog para publicar um post e apareceu um "anúncio" para outro blog que eu achei interessante. Na verdade, é uma lista de blogs ambientais, todos em inglês:

http://buzz.blogger.com/2007/10/environmental-blog-roundup.html

Ainda não consegui ler esses blogs da lista, mas vou tentar tirar um tempo e ler.

Fiquei me perguntando: será que tem blogs assim em português?

O onipresente computador

Hoje estava vindo de bicicleta para a universidade quando vi um aparelho de som no lixo. Era um receiver JVC, meu sonho de consumo nos anos 80/90. Quase juntei e levei para casa. Não é porque esteja faltando música aqui. Para reduzir o peso na viagem, eu converti vários de nossos CDs em MP3, e escutamos no computador.

Confesso que ando meio enjoado do computador. Tudo é no computador: ouvir música, ler livros (em formato PDF), ver fotos (da câmera digital). Além disso, tenho usado o Skype para ligar para o Brasil e para o Canadá, pois sai muito mais barato, mesmo comprando os créditos do Skype para ligar para telefones convencionais.


Hoje estava aqui no escritório na universidade. Tenho um telefone Meridian aqui na mesa (ver foto). É um ramal digital. Para quem não é do ramo de telecomunicações, eles são bem mais caros que os ramais "normais", aqueles que tem os telefones antigos ligados. Nas empresas em que trabalhei, esses ramais iam só para a mesa dos bacanas. No Canadá, esses telefones estão em qualquer biboca. Bom, de qualquer maneira, é um ramal digital: tem identificação de chamadas, dá para ver o número para o qual vai se discar, enfim, não é dos piores. Eu tinha que ligar para umas 6 empresas canadenses. Eu mandei os questionários para elas e tinha um pequeno detalhe que eu tinha que comunicá-las. Não é que eu achei estranho ligar do telefone convencional? Achei muito primitivo ter que cancelar a ligação caso tenha teclado um número errado. No Skype, se eu errar um número, teclo "<-" e arrumo... Definitivamente, estou precisando voltar ao "mundo normal"...

sábado, 20 de outubro de 2007

Agora eu tenho um número no Canadá

No mesmo dia em que chegou nossa confirmação de reserva de vôo para voltarmos ao Brasil, eu consegui obter o meu SIN Canadense: Social Insurance Number - registro no Sistema de Seguridade Social. Como eu tenho visto de estudante, só posso exercer funções remuneradas se estas forem no campus universitário.
Há alguns dias ficamos sabendo que haviam vagas para Exam Proctor (fiscal de provas) do Programa de Graduação em Administração da Ivey Business School da University of Western Ontario.
Me inscrevi, enviei meu curriculum vitae e fui chamada para uma entrevista, no dia seguinte, com a diretora do Programa. Depois da entrevista, tive que providenciar meu número nesse sistema de seguro social canadense. Hoje à tarde eu juntei os documentos requeridos e levei até o escritório londrino de Recursos Humanos do Canadá. No escritório, fui entrevistada por uma oficial e, em poucos minutos, já estava com meu número de registro. Simples e rápido como estalar os dedos.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Faltam 3 meses!

Hoje pela manhã, antes de sair de casa, fui conferir os emails. Recebi uma ótima notícia: o CNPq (órgão do governo brasileiro que paga minha bolsa de estudos no Canadá) fez as reservas de nosso vôo de volta.

Saímos daqui dia 18 de janeiro, uma sexta-feira, e chegamos ao aeroporto de Porto Alegre dia 19, final de tarde. Na verdade, como vai ser o auge do verão, acho que ainda vamos ter umas horas de sol ainda depois de pousarmos, se o vôo não atrasar.

Essa notícia foi muito boa! O Canadá é muito bacana e tudo, mas estou morrendo de saudades "do pessoal lá de casa" e não vejo a hora de voltarmos.

Talvez tenhamos que começar a pensar no que vamos fazer com nosso blog. Se mantemos depois de voltar, e aí ele vira o blog do Iuri e Nara "seja lá onde for" ou "congelamos" o blog para mostrar para os netos.

FHC na Western

Ontem foi o Brazil Day colloquium na University of Western Ontario. Recebemos o convite para assistir ao palestrante, um ilustre sociólogo brasileiro, o Dr. Fernando Henrique Cardoso.

Eu e a Nara fomos lá. Ele falou por uma hora, depois respondeu a uma hora de perguntas. Era um formato de mesa "redonda". Era uma mesa retangular, na verdade. FHC sentou na ponta, tinha convidados de outras universidades sentados à mesa com ele e nós sentamos em cadeiras dispostas atrás deles. Era um pequeno ambiente. Eu a Nara sentamos perto do FHC, eu estava a menos de 2 metros dele. Tanto que uma vez eu "pensei em voz alta" e ele me perguntou o que eu havia dito. Era totalmente acessório à fala dele, mas... Ele recapitulou a história política do Brasil pós-64 e quando ele falou no Collor, referiu-se a uma frase famosa em que FCM disse ter apenas uma oportunidade para debelar a inflação... lembrei da frase "uma bala só" e saiu boca a fora. Ele virou e perguntou que eu havia dito. "Only one bullet" - respondi.

É difícil, pelo menos para mim, ouvir a história das Diretas Já, Tancredo, Sarney, Collor, Topet... quer dizer... Itamar, FHC e Lula sem me emocionar um pouco. Vivemos tudo isso. Alguém já disse uma vez que ser brasileiro é ter esperança. Sempre temos esperança que melhore, umas vezes de forma mais viva que de outras.

Ouvir o FHC falar tão candidamente de como funciona o processo de formação do Congresso Nacional é duro e ao mesmo tempo esclarecedor. Ele muito calmamente explicou a forma e a razão pela qual os candidatos a deputado disputam de forma acirrada com seus próprios colegas de partido, de como ocorrem as disputas de poder e de influências e de como os partidos são tudo, menos um corpo que abriga linhas ideológicas. Quando chegam ao Congresso, ao invés de companheiros de partidos e representantes do povo, os congressistas são inimigos entre si, mesmo sendo de mesmo partido.

Finalmente, ele fez uma conexão que eu nunca havia pensado. Faz muito tempo leio textos de sociólogos que falam na sociedade pós-moderna e fragmentada, onde o conceito de grupo social faz cada vez menos sentido, pois não há uniformidade suficiente para haver tal grupo. Ele, felizmente, não falou em "pós-modernidade" - aliás, detesto essa expressão. Mas disse que com a fragmentação da sociedade, cada vez mais o conceito de "representante" faz menos sentido. Ou seja, se não há mais grupos sociais homogêneos, o deputado é representante de quem? Isso é uma idéia nova, ou uma conexão nova com uma idéia nem tanto, que por si já é algo. No Brasil, diz ele, nem o deputado sabe quem votou nele, nem o cidadão sabe mais, depois de dois dias, em quem ele votou. Ou seja, o deputado não se sente cobrado pelo povo nem o povo sabe mais de quem cobrar.

***

Ouvindo o FHC senti-me um pouco mais tranqüilo. Por dois motivos. Um deles é totalmente pessoal. Ele fala inglês com sotaque. Apesar de falar inglês claramente, a fala dele é entremeada de "né", "ó", "assim"... que nem eu! Se alguém com a corrida dele fala assim, fiquei um pouco mais calmo e me achando menos burro por, em meia dúzia de meses no Canadá, ainda ter esses problemas quando falo. Aliás, tenho pensado muito seriamente na possibilidade de carregar no sotaque estrangeiro quando falar, porque acho que além de dar um certo charme, ainda pode fazer os interlocutores entenderem que tenho falhas de vocabulário por ser estrangeiro. Melhor do que parecer idiota ou iletrado.

O outro motivo é mais pessoal ainda. A Nara e eu estávamos bem nervosos antes de ir, não sabíamos bem que roupa vestir nem como nos comportarmos lá. Chegamos lá de táxi, estava chovendo, e entramos no prédio da University College (o prédio alto, com a bandeira do Canadá, que fica em frente à Ivey). Chegando lá, lembrei que precisava pegar umas coisas na Ivey. Fui até lá e deixei a Nara esperando. Quando voltei, para minha surpresa e felicidade, ela já estava enturmada com as pessoas que estavam esperando por lá. Conhecemos outros brasileiros no Canadá. Alguns doutorandos fazendo estágio como eu, outros professores trabalhando em universidades canadenses, o vice-cônsul do Brasil no Canadá, e assim por diante. A Nara, popular como sempre, já estava conversando com algumas pessoas e eu com outras, e me apercebi que, apesar de não termos nascido em berço de ouro, temos educação suficiente para "sobreviver" socialmente em situações um pouco mais extremas como essa.

O que é uma teoria?

Hoje o seminário de pesquisa foi sobre um tema "pastoso": criação de teoria.

O visitante é professor da Emory University, nos Estados Unidos: Ajay K. Kohli. A grande contribuição dele foi ter sido um dos autores da orientação para mercado (MARKOR), talvez uma das teorias mais influentes de Marketing nos anos 90. Ele começou dizendo que a frase que mais incomoda ele é "isso até pode ser na teoria, mas na prática não funciona...". Se teoria serve para explicar a realidade, como não pode funcionar na prática?

Foram uma hora e meia de "bate papo". Esses seminários de sexta-feira são muito legais, porque são bem informais. Eu já havia falado sobre dois deles, que eram sobre "greenwashing". O de hoje foi bem mais informal, pois não tinha um artigo para ler antes. O professor chegou "de peito aberto" e uma apresentação com meia dúzia de slides.

Tinha uns 20-30 doutorandos assistindo, bem como uns 10 professores da Ivey. Uma turma bem eclética, e que gerou um debate bem intenso. Como posso explicar... não foi um grande salto no que eu já sabia sobre construção de teoria, mas eu aprendi uma coisa que valeu. A comparação que eu fiz foi a seguinte: é como se meu conhecimento sobre o assunto fosse um piso bom, mas que tinha um "calombo" que sempre atrapalhava quando se passava por ali. Hoje, nesse seminário, eu fiz uma pergunta, que apesar de errada conceitualmente, resolveu esse "calombo".

E isso vinha incomodando, sabe? Meu projeto de pesquisa, que apresentei e defendi antes de vir para o Canadá, tinha esse problema. Um dos professores da banca comentou, mas eu saí ainda na dúvida de como resolver. Hoje "caiu a ficha".

Às vezes, precisa mais que uma martelada para arrumar um calombo.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Produção Leiteira no Canadá

Nós já fizemos alguns posts sobre a produção de leite no Canadá, mas sei que estou devendo maiores detalhes sobre as práticas canadenses de "tirar leite de vaca" com maior produtividade e lucro.

Algumas características importantes diferenciam as práticas do Brasil e do Canadá em relação à produção de leite ou dos demais produtos do setor agropecuário. O clima é uma dessas características: durante alguns meses, a terra em Ontário é coberta por neve, a temperatura oscila entre +30ºC e -30ºC, que inviabiliza o uso constante de pastagens e a criação extensiva.

Com relação às diferenças climáticas entre o Brasil e o Canadá e sua influência nas formas de manejo do gado leiteiro, posso dizer que o sistema utilizado aqui é o de confinamento, com raras exceções em que as vacas são levadas às pastagens, durante o período de verão. Como o inverno é muito rigoroso por aqui e a neve cobre totalmente os campos canadenses, o rebanho permanece confinado em grandes e confortáveis estábulos, prioritariamente os freestalls, ou baias abertas, proporcionando às vacas liberdade de circulação. Esses estábulos são bem arejados e todas as aberturas são cobertas por telas - assim como as residências humanas. Na parte externa dessas aberturas, há cortinas suspensas durante o verão, que são rebaixadas quando o frio chega. Assim o gado permanece em temperatura agradável durante todo o ano. Há fotos desses estábulos no webalbum, cujo endereço está no final deste post.


Como eu já mencionei, no verão alguns fazendeiros levam suas vaquinhas para conviver com a natureza, como é o caso de John Urquart (marido da Cathy do Big Sisters of London). Outros ainda, preferem dar liberdade às suas "Mimosas" para irem e virem das pastagens aos estábulos.

Ainda sobre as questões climáticas: no Canadá os fazendeiros aproveitam a primavera e o verão para cultivarem grãos e volumosos para fazerem silagem e feno, que irão alimentar o gado durante o todo o ano. Isso diferencia nosso sistema tradicional de produção brasileiro, que usa o volumoso (pastagens) essencialmente para matar a fome das vacas. Claro que o volumoso fornece certos nutrientes, que precisam ser complementados pelos concentrados do tipo silagem ou feno, mas não há, por parte do produtor, uma "ciência" nisso. Alguns produtores canadenses enviam uma amostra dos concentrados produzidos em suas fazendas para um "nutricionista", que vai receitar uma dieta balanceada para cada tipo de animal (vacas secas, em lactação, pós-parto, bezerros). Essa dieta é misturada no "mixer" e distribuída às vacas confinadas. No Brasil, o clima é propício à criação extensiva (a pasto) ou semi-confinada (revezamento entre confinamento e a pasto) durante o ano todo, além do fato de que a terra é muito mais barata.

Outra importante característica é o conhecimento que os fazendeiros possuem sobre práticas de manejo e gestão das propriedades. Vários produtores que conhecemos aqui são formados na Universidade de Guelph, seja em agronomia, agronegócios ou veterinária. Aqueles que não têm um diploma universitário, tem um college diploma, que seria equivalente ao nosso técnico pós-médio ou tecnólogo, ou ainda os novos cursos seqüenciais.

Outro aspecto importante é a comercialização. Segundo um fazendeiro com quem conversei durante o Farm Show em Woodstock, em setembro, o leite produzido em Ontário só pode ser vendido para a associação dos produtores. É a Dairy Farmers of Ontario, que repassa o leite para as indústrias e também se encarrega de fazer a divulgação dos produtos lácteos, junto aos meios de comunicação (propagandas institucionais, do tipo "beba mais leite"). Os problemas logísticos também são melhor tratados em Ontário, pois além do leite ser coletado todos os dias pela associação, as estradas são muito bem conservadas pelo governo.

Do ponto de vista do consumidor, há diferenças importantes entre o mercado canadense e o brasileiro. No Canadá, está havendo um crescente entendimento da população urbana sobre a produção agropecuária, aliada à valorização que essa atividade merece. Os assuntos agropecuários já estão sendo inseridos, inclusive, nos currículos escolares para a educação fundamental. Quanto mais as pessoas que vivem na cidade e que se alimentam dos produtos das fazendas estiverem conscientes da importância das atividades rurais, mais pressionarão os governos para que melhorem as condições de produção e distribuição dos alimentos. Então, o nível de agricultural awereness, ou "consciência agrícola", da população urbana, determina a qualidade e intensidade das políticas públicas para o setor. No Brasil, a população urbana tem um menor agricultural awereness (o leite nasce das caixinhas vendidas no supermercado...), e as políticas governamentais não favorecem o setor.

Um dos fazendeiros canadenses, por exemplo, disse que já visitou o Brasil várias vezes e que o problema em nosso país - se referindo especificamente ao caso da produção leiteira - é o baixo preço pago aos produtores. Segundo ele, isso inviabiliza a obtenção do lucro desejado e desmotiva o produtor de leite a melhorar suas práticas. Hoje se fala tanto em café fair-trade, ou seja, aquele café que foi comprado do produtor rural a um preço justo, e ninguém pensa em leite fair-trade. Para se ter uma idéia da disparidade, aqui o leite é vendido a 75 cents de dólar canadense, enquanto a cotação em São Paulo e Minas Gerais é 55 centavos de real, e no interior de Taquara há produtores que chegam a receber 35 centavos de real por litro.

Outro detalhe interessante é que nenhuma família de fazendeiros consome o leite in natura, ou seja, todos são conscientes de que o leite deve ser beneficiado na indústria antes de ser considerado um alimento saudável para os humanos.

Todos os produtores de leite da província de Ontário são associados à Dairy Farmers of Ontario, uma associação que coleta o leite produzido nesta província. Durante a Conferência Nacional de Agricultura, em maio, eu conversei com a gerente de comunicação dessa organização e pude obter algumas informações. Estou com uma visita agendada à sede da associação, localizada na cidade de Mississauga, para o próximo dia 2 de novembro. Nesse dia, o diretor de comunicação da Dairy Farmers of Ontario, vai me receber e conceder uma entrevista sobre o processo de produção de leite e derivados nesta província.

Há ainda muito o que falar sobre as vaquinhas e seu ouro branco, como higiene no manejo e conforto animal, mas vou deixar para outro post.

Fotos e vídeos que ilustram e explicam os conteúdos deste post podem ser apreciadas em:
http://picasaweb.google.com/Nara.Maria.Muller/ManejoNaAtividadeLeiteiraNoCanada

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Sustentabilidade na produção de leite

Introdução

O Iuri e eu temos compartilhado quase todas as nossas experiências educacionais e culturais aqui no Canadá. Quer dizer: eu o ajudo com os trâmites operacionais da sua pesquisa, além de, em alguns momentos, ler seus textos e ouvir suas descobertas e suas dúvidas (às vezes até dou uns palpites). Eu também estou participando com o Iuri dos Seminários de Sustentabilidade, coordenados pela doutora Tima Bansal, da faculdade de Administração da Universidade de Western Ontario. De sua parte, o Iuri tem me acompanhado a eventos ligados à produção de leite e também em visitas a fazendas. Seu objetivo é conhecer o que tem sido feito por aqui, para gerar energias alternativas e "verdinhas". Eu não posso deixar de mencionar que ele atua como meu motorista particular e fotógrafo - risos.

Biodigestores:
Em maio visitamos uma das três maiores fazendas de leite de Ontário: a Stanton Brother's Farm. Essa fazenda, com apoio do governo de Ontário, está implantando um projeto de biodigestão dos dejetos orgânicos - foto à esquerda. A idéia é captar, além dos dejetos produzidos na fazenda, também a produção de dejetos da cidade de London (laticínios vencidos, por exemplo), pois estima-se que a capacidade do biodigestor da Stanton Farms será muito superior ao que ela própria poderá produzir de matéria orgânica. Os proprietários acreditam que, quando o projeto estiver concluído, poderá fornecer energia para além da propriedade.

Cataventos - Windmills:

O Canadá, assim como o resto do mundo, está preocupado em produzir energia aproveitando o que a natureza provê, causando-lhe o menor dano possível. Assim, temos visto os cataventos - foto à esquerda: como os que temos em Osório, no Rio Grande do Sul, além dos biodigestores da Stanton Farms, ou os aquecedores de água, que utilizam o calor produzido pelo leite recém colhido, durante o seu processo de resfriamento.

A Hydro, empresa de energia elétrica do Canadá, tem um programa de incentivo à produção de energias renováveis. Significa que os fazendeiros que produzem energia elétrica, utilizando fontes alternativas como os biodigestores, cataventos, coletores solares, etc., obtêm descontos proporcionais em suas contas mensais de consumo da Hydro. Mais informações sobre esse sistema podem ser obtidas no site da própria companhia de geração de energia elétrica canadense: http://www.hydroone.com/en/electricity_industry/renewable_tech/

Aquecimento de água:

Outra coisa interessante que eu vi nas fazendas de leite aqui em Ontário, é o sistema de pré-aquecimento da água necessária para a limpeza dos equipamentos e da sala de ordenha.
Normalmente, a água utilizada para esse fim precisaria ser aquecida através do uso de energia elétrica ou caldeira. Entretanto, muitos fazendeiros utilizam um equipamento (trocador de calor), um processo extremamente simples, mas eficiente. Após a ordenha, o leite está a uma temperatura de 37º C e é direcionado, através de tubulações, para dentro desse trocador. Em outro ponto acontece a entrada de água fria que circula provocando a troca de temperatura de ambos os líquidos. O leite sai à temperatura de 10º C e segue para o resfriador para atingir à temperatura ideal de conservação: de 2 a 4º C. Já a água sai aquecida (morna) e precisa de menos energia elétrica para entrar em ebulição, tornando-se adequada à limpeza e higiene que a atividade exige.

O diagrama à direita (tirado do site Answers.com) mostra como funcionam esses trocadores de calor.

Um dos fazendeiros que visitamos utiliza a água que sai do trocador de calor para alimentar o rebanho. Ele diz que as vacas gostam de beber água morna. Mais adiante vou fazer um post sobre "conforto animal" e, sem dúvida, voltarei a mencionar essa preocupação em dar às vacas, o que lhes agrada...

Sobre sustentabilidade, era isso o que eu tinha para relatar, mas deixo o link para o álbum de fotos e vídeos que explicam um pouco mais essas práticas de geração de energia:

http://picasaweb.google.com/Nara.Maria.Muller/TCnicasDeSustentabilidade

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Passeios de outono 2

Praia no outono:
Ontem a Zulma, nossa amiga brasileira que mora por essas terras geladas, nos proporcionou um belo passeio à praia de Grand Bend, junto a um dos grandes lagos de Ontário: o Lago Huron. Ficamos encantados com tamanha beleza e lamentamos não termos conhecido essa praia durante o verão - que passou muito depressa...

Produtos da terra:
No caminho para Grand Bend nós visitamos uma fazenda de maçãs que produz vinhos dessa fruta. A loja de madeira, construída pelos próprios fazendeiros (todos da mesma família), expõe uma farta variedade de abóboras, produto pelo qual o Canadá é muito conhecido. Aliás, no final de outubro, esse fruto da terra estará enfeitando todas as casas de London, para a festa de Halloween.
No andar térreo são vendidas frutas, guirlandas, geléias, etc. No andar de cima da loja são comercializados os vinhos que também podem ser degustados no local.


Pinery Park:

Entre a fazenda de maçãs e a praia de Grand Bend, almoçamos numa padaria e cafeteria da pequena Thedford e visitamos o Pinery Park.

 Iuri num deck no Pinery Park

Eu com as abóboras da época

A loja de vinhos de maçã

 Eu na praia de Grand Bend

Iuri na praia de Grand Bend

Passeios de outono 1

É outono e o friozinho começa a se manifestar devargarzinho, com sol entremeado por nuvens e chuvas leves. Sempre que é possível, o Iuri e eu saímos para caminhar ao longo da cidade. Queremos assistir a toda essa fabulosa transformação da natureza com suas muitas cores, e aproveitar os últimos resquícios de calor solar, antes que a neve volte a esbranquiçar a paisagem e congelar nossos ossos.
E para compartilhar essas belezas, fizemos um álbum de fotos e vídeos que pode ser apreciado em: http://picasaweb.google.com/Nara.Maria.Muller/PaisagensDeOutono

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Escapando das Balas



Por enquanto, estou apenas tentando escapar das balas aqui no doutorado... volto a relatar quando baixar a poeira!

Muita coisa legal acontecendo, e aí falta tempo para escrever.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Dia de Ação de Graças

Hoje, 2ª segunda-feira de outubro, é o dia de Ação de Graças - Thanksgiving - em que se celebra os resultados da colheita anual, aqui no Canadá. Nos Estados Unidos o Thanksgivin é celebrado na 4ª quinta-feira de novembro. Eu achei muito engraçadinha a explicação do Thanksgiving, feita por alunas do ensino fundamental e disponibilizada na internet:
http://www.minerva.uevora.pt/netdays99/celebrar/products/thanksgivingp.htm

Para celebrar o dia de Ação de Graças, Mary-Anne e Zenon nos convidaram para a ceia em sua casa. Tivemos uma mesa repleta de alimentos oriundos da terra, além do tradicional peru recheado - um peru gigante, diga-se de passagem. No cardápio constavam batatinha "inglesa" assada no grill, batata doce cozida em rodelas, um suflê de vagem, um prato adocicado feito de cranberry, ou uva-do-monte - figura à esquerda. Havia também um suflê de cenoura com algum ingrediente cujo nome não consigo lembrar e pãezinhos de cereais.
Para sobremesa havia torta de maçã, torta de abóbora e uma espécie de biscoitos recheados, feitos pela Catherine, mãe do Zenon.
Havia outros convidados na casa de nossos anfitriões, o Steve, a Carol, o Nur e a Catherine. Todos nos fartamos de tanto comer - eles dizem que não se absorve as calorias do que se come na celebração do Thankstiving. Tomara!

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Greenwashing e Bluewashing

Faz um tempo que eu cruzei com o termo greenwashing, ou lavagem verde. Eu estava tentando definir green marketing, ou marketing ambiental, e um é muito confundido com o outro.

Green marketing
é o alinhamento dos processos de troca de uma empresa (pesquisa e desenvolvimento conceitual de produtos, definição do ponto de venda e do canal de distribuição, e composto de comunicação) à estratégia ambiental da empresa. Ou seja, um processo legítimo e desejável.

greenwashing é picaretagem. Mais polidamente, podia se dizer que é "partial disclosure", ou seja, dizer parcialmente a verdade. Ora, pela formação que tive em casa, quem fala parte da verdade está mentindo... Ou seja, uma empresa comunica ao mundo que implementou um projeto novo que reduz suas emissões de gases de efeito estufa, causadores do aquecimento global, mas "esquece" de mencionar que implementou uma dezena de outros projetos que efetivamente aumentam as emissões dos mesmos gases.

Só para recapitular, pois acho que já disse isso antes em outro momento, aqui na Ivey eu faço parte de um grupo ligado ao Centro de Sustentabilidade da escola de administração. Pois bem, esse centro está conduzindo uma série de seminários sobre alguns aspectos da sustentabilidade, aberto a alunos de doutorado e professores. A programação desses seminários está em http://www.ivey.uwo.ca/research/speaker_series.html.

Os dois últimos seminários em que participei foram sobre greenwashing. No primeiro, o professor John Maxwell, da Indiana University, foi apresentar um artigo teórico, escrito por ele e Thomas Lyon. Quem suportar modelagem matemática, ou quiser pular "as cobrinhas", pode fazer download do artigo deles no link acima (por uma questão de clareza, vou deixar para fazer meus comentários sobre modelagem matemática ao final...). A conclusão dele é que as empresas "medianas" têm mais probabilidade de fazer greenwashing. Ou seja, quem está muito bem na foto ou quem está muito mal, não tem porquê esconder algo. Da mesma maneira, as empresas muito ou muito pouco pressionadas por governos e ONGs ambientais tendem a esconder o jogo.

De lambuja, 0 prof. Maxwell me apresentou um termo novo: bluewashing. Seria o equivalente ao greenwashing para as informações de desempenho social da empresa. Exemplo: uma empresa divulga em seu balanço social que está pagando seus empregados de forma mais justa, melhorou a diversidade de sua força de trabalho. Mas esconde que tercerizou sua produção para uns picaretas em uma republiqueta sem lei social nenhuma, que utiliza trabalho escravo e consegue entregar um componente qualquer mais barato do que essa empresa conseguia produzir internamente.

Já sexta-feira passada, o co-autor dele, Thomas Lyon, diretor do Centro de Sustentabilidade da Universidade de Michigan, veio apresentar um artigo "empírico" sobre greenwashing no setor de energia elétrica nos Estados Unidos (quem quiser saber a diferença entre um estudo teórico e um empírico, leia os comentários finais). Os americanos inventaram um programa voluntário de disclosure, ou seja, divulgação de informações, sobre o desempenho ambiental no setor de energia elétrica, que é de longe o setor mais poluente nos Estados Unidos. Vamos lembrar que, contrariamente do Brasil e do Canadá, os Estados Unidos têm uma matriz energética fortemente dependente de termoelétricas. Ou seja, eles queimam petróleo e carvão para obter energia. Já os brasileiros e canadenses usam uma energia mais "limpa", a hidroelétrica. Para resumir uma história comprida, o tal programa de disclosure americano é uma palhaçada. A empresa pode optar por divulgar os dados da empresa toda, ou apenas de projetos selecionados. A melhora do desempenho ambiental pode ser estimada com base no ano que a empresa quiser, ou numa média desses anos, ou ainda a partir de uma base hipotética... Ou seja, é uma peneira, a empresa declara o que quer. Metade das empresas de energia americanas aderiu. Resultado da pesquisa: as empresas que não aderiram poluíram menos que as que aderiram. Programa governamental bem desenhado (e bem intencionado...) taí...

Modelagem Matemática

A modelagem matemática é uma técnica de tortura de letrinhas, romanas e gregas. É o método preferido dos economistas e dos físicos. Talvez por eu não entender muito de modelagem matemática, não gosto dela. Parece desconectada da realidade. Gosto mesmo é de pesquisa empírica, onde a gente tem um problema de pesquisa para resolver, desenvolve medidas para as coisas, planeja uma forma de medir o fenômeno, coleta os dados em campo e analisa esses dados. De preferência, com estatísticas. Gosto de números.

Talvez a grande diferença entre o tipo de pesquisa empírica e a teórica é que a primeira tortura números e a última tortura letras.

Todo mundo que teve matemática no ensino fundamental e médio lembra das aulas de álgebra. A professora enchia o quadro de letras e números e ia aplicando operações neles, "torturando" as letrinhas até transformar uma equação em outra. Naquela época, aquilo parecia uma tortura interminável. Não nos números e letras, mas na gente mesmo. Que horas que começa o recreio, mesmo? Gostava muito mais de geometria: era mais aplicado. Afinal, calcular a área e volume me pareciam mais palpável do que saber que (x+1)2 = ...

Na faculdade, tive aulas de cálculo diferencial e integral, equações diferenciais e álgebra linear. Parecia tão aplicável e útil quanto... a matemática do ensino médio! A diferença é que tem mais símbolos e se usam muitas (muitas!) letras gregas.

Talvez um dia eu acabe entendendo modelagem matemática e até gostando dela... afinal, foi como o Einstein e o Newton revolucionaram o conhecimento nas suas épocas. Mas acho que não tenho essa bolinha toda... vou ficar brincando com meus números e deixar gênios torturando as letrinhas gregas.