quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

As Crônicas de Nara - parte I


As protanogistas desse abraço somos a Ana e eu. Quem é a Ana? Ela é uma amiga daquelas que se guarda no coração, por toda uma vida. A Ana é a minha homenageada na primeira crônica que escrevi para o meu futuro lançamento literário. 

Que todos tenhamos muitas Anas em nossas vidas!

AS SOPAS DA ANA

Por: Nara Maria Müller

“Amigo é coisa prá se guardar do lado esquerdo do peito.” Essa frase inesquecível faz parte da música cantada, tão lindamente, pelo nosso querido Milton Nascimento. E eu acredito que todos nós temos ou já tivemos um amigo do tipo que se guarda no lado esquerdo do peito, dentro do coração. Você concorda comigo? Pois bem, neste texto eu quero relembrar e homenagear uma amiga lá de Taquara, que guardo, com muito amor, dentro do meu coração.

Lá pelos anos 2000 eu comprei meu primeiro apartamento, em Taquara. Eu já tinha cometido alguns erros, passado por várias dificuldades e continuava contando moedas e anotando minhas contas numa velha agenda, para honrar as dívidas e para comprar o pão de cada dia.

Naqueles dias eu tinha conseguido uma nova oportunidade de carreira na FACCAT – Faculdades de Taquara, onde eu trabalhava e cursava o Mestrado.

O salário aumentara consideravelmente, mas eu tinha que pagar dívidas contraídas nos dois anos anteriores, logo depois do divórcio. E, para poder assumir o novo cargo eu tive que comprar um carro, ou seja, mais dívidas, mas isso eu conto em outra história.

Mudei-me para o Edifício Gabriela, bem no centro da cidade. O meu apartamento ficava no quarto andar de um prédio sem elevador, mas com dois dormitórios e uma vaga na garagem. Eu tinha certeza de que tudo melhoria dali para a frente.

Foi nesse período que eu conheci a Ana, a vizinha que morava no mesmo prédio, com sua filha, Natália e o TOB, o cachorrinho poodle. Nossos apartamentos eram de fundos, o dela no terceiro e meu no quarto andar.

Eu trabalhava três turnos na FACCAT e, nos fins de semana, fazia minha dissertação de Mestrado. Vez por outra eu participava de reuniões em Porto Alegre, no Centro Administrativo do Estado, na extinta SEDAI – Secretaria Estadual do Desenvolvimento e Assuntos Internacionais.

Voltando de Porto Alegre eu ia direto ao Campus da FACCAT onde atendia alunos de Trabalho de Conclusão em Administração. Voltava tarde, depois das 22h30min, estacionava o carro na minha vaga nos fundos do prédio, extremamente cansada. E ao desembarcar do carro, lá estava a Ana, na janela do seu apartamento no terceiro andar, dizendo: “vem tomar uma sopinha que eu fiz para te esperar!”

Não tenho palavras que consigam expressar o meu sentimento naqueles momentos! Eu sentia o amor que a Ana tinha por mim, ela e a sua filha Natália. E eu subia as escadas com ânimo, sabendo que lá no terceiro andar estavam duas pessoas amorosas e um cachorrinho barulhento fazendo festa para mim. Aquelas sopas da Ana são inesquecíveis assim como ela, a Ana é inesquecível. Eu escrevi este texto para homenageá-la e para demonstrar meu mais profundo agradecimento a ela que me acolheu, que me ouviu, que me aconselhou e que compartilhou choros e risadas comigo. Hoje, raramente nos vemos, mas eu sinto muitas saudades dessa minha amiga querida!

Neste momento eu ouso questionar: quem já não teve uma Ana em sua vida? Quem de nós já não foi essa Ana na vida de outrem? Amigos são irmãos, são pais, são mães que nós escolhemos ou que nos escolheram. Amigos são aqueles anjos que estão, uns nas vidas dos outros, para saborear os bons momentos ou para chorar juntos, quando os tempos são ruins.

Que possamos ser mais amorosos, mais pacientes e mais ouvintes das pessoas que nos cercam. Que este mundo tenha mais Anas!


domingo, 3 de setembro de 2023

Memórias de um amor sem fim

 


Por Nara Maria Müller – 03 de setembro de 2023

 

Quando te amei primeiro, eu nem me lembro

Ainda era bem pequena quanto te conheci

Tenho na memória um certo mês de novembro

Quando te vi pela primeira vez e nunca mais te esqueci

Pular sobre aqueles rolos d’água parecia uma coisa à toa

Lembro até da medusa que se enrolou no meu braço, um dia

Eu ficava mostrando o bracinho para cada pessoa

Querendo me queixar da queimadura que doía

Um dia, depois de tantas férias curtidas com a família

Realizei o sonho que é igual ao sonho de tanta gente

Saí daquela casa grande e cheia de mobília

E vim para este lugar que faz tanto bem para minha mente

E todo dia, não importa se o astro rei está ali a te iluminar

Ou se a chuva está caindo em profusão

Mesmo que a neblina tente ocultar a tua beleza sem par

Me recarrego da tua energia e da tua inspiração.

Gosto de parar e ver o vento soprando contra o teu andar

E de ver teus cachos brancos se despenteando

Da infância, correndo contra o vento, fico a me lembrar

E sinto a felicidade de estar ali, somente te vendo e te amando

segunda-feira, 22 de maio de 2023

Mary Anne

 In 2007 I met an angel. And now she has gone to Heaven.

I got a scholarship when I was a PhD candidate to study for one year abroad. And I was accepted at the
prestigious Ivey Business School, in London, Ontario. Looks fancy, and in some ways, it is, but there was a catch. I got a small scholarship, compared to the living costs in London. I then sent emails to several homeowners explaining my situation and two of them returned. One of them was Mary Anne. Back then, she and her husband, Zenon, had a small side business: renting housing for students.

We live in south Brazil. It is cold here, for the Brazilian standards. Eventually, on colder nights, in the mountains, it can get to -5ºC. Where I live, when it is +5ºC, everyone is shivering and complaining. Anyway, we got to Canada in March 2007, when it was not that cold. It was -12ºC during the day – we never saw that cold! We never had the experience of walking on sidewalks covered with inches of snow. Then we had it. The one person that got it was Mary Anne. She was working as the director of the Nursing School at the Western University back then, but she sent Zenon to rescue us. For the rest of Canadians, maybe, it was just a pickup. But for us, Zenon was rescuing us from the slippery and cold Canadian Spring. We met her the following day. She summoned Zenon to go with us to the used furniture stores. She was having fun at those shops!

To make a long story short, from landlords we became friends. From time to time, Nara had to call
Mary Anne to rescue me from my downs in my research. And everyone undergoing the painful research learning process knows what I mean. 


We never lost connection when I came back to Brazil. I got another grant for a sabbatical in 2017, and we went back to London, Ontario. They visited us in Brazil in 2020, just before the shutdown of international flights due to the covid-19 pandemics. We had so many good moments together.

From time to time, we chatted over the internet. Sometimes video, sometimes just text. She eventually sent me a funny photo of a VW Kombi. Then, we found out she had leukemia. It was under control, she said. Then I got the notice, yesterday, she was in the hospital. She was fine by early April, then she started having pains in the stomach. They diagnosed with colon cancer. She was then submitted to surgery. When they opened her up, they found out that the cancer was intertwined with her blood vessels and did not remove it. She has been under paliative treatment since then. Yesterday, she passed away having the company of her beloved husband Zenon.

In 2007 I met an angel. And now she left us.



quinta-feira, 4 de maio de 2023

ODE AO EMPREENDEDOR

 

Image by: Helena Jankovičová Kováčová at Pexels.com


Por Nara Maria Müller

 

Desde criança ele queria ser rico

E querendo ser rico, pensava qual  a melhor opção

Dia após dia, ia ele, o pequeno Nico

Ia para a escola, ia para a igreja e conversava com o professor João.

 

O Nico gostava de pescar

Pois a pescaria era o ganha vida dos seus pais

Dos seus tios e do poderoso mercador, o senhor Oscar

O rico senhor Oscar sempre chegava e partia do mesmo cais.

 

Vivendo na simplicidade que o dinheiro da família lhe provia

Lá ia o Nico ouvir os conselhos do professor João

Ter um armazém para vender peixes naquela baía

Tornou-se a vontade do menino que crescia como um pé de feijão.

 

Estudar era o melhor caminho, sugeria o astuto professor

E se envolvendo nos livros de geografia, matemática
e língua portuguesa

O Nico desenvolvia suas competências para ser um empreendedor

Um dia chegaria lá, pensava o Nico, com a ideia sempre acesa.

 

Eis que o Nico conseguiu um emprego na empresa do senhor Oscar

Aprendeu a arte da negociação, da compra, da venda e da evolução

Alugou um galpão e lá estabeleceu seu negócio pertinho do mar

Com os ensinamentos dos pais, do professor e do Capelão.

Tornou-se o Nico um empresário de sucesso

Sempre honesto, Nico dedicava sua vitória, com gratidão

A todos os que contribuíram com o seu próprio progresso.

sexta-feira, 17 de março de 2023

As crônicas de Nara - parte IV


imagem by Pexels-kindle-media

 O DIRETOR DE ARMAS

 Por Nara Maria Müller

Em tempos de escassez de oferta de empregos, ou de falta de qualificação das pessoas para ocuparem as vagas existentes, eu sempre fico pensando qual é a razão dessa incoerência. Ou qual seria a solução para esse problema?

Quando estudamos matemática na escola, aprendemos algumas fórmulas e todas elas têm um sinal de igualdade (=) entre um lado e outro, não é verdade?

É claro que no quesito social, a maioria das situações não apresentam esse sinal de igualdade e, sim, uma desigualdade tremenda.

Mas enquanto você e eu pensamos nas razões ou nas possíveis soluções para essas desigualdades, quero contar o quanto eu me surpreendi, certo dia, com a existência de uma profissão que nunca tinha imaginado que existisse.

Era uma manhã ensolarada e o mês era dezembro de 2022.  Eu peguei carona no carro de um motorista de aplicativo BlaBlaCar e nós fomos conversando ao longo do caminho, até chegarmos a uma parada de ônibus, próxima aos belos condomínios de Tramandaí, onde embarcou mais um passageiro.

Desde que esse passageiro entrou no carro, as conversas ficaram, praticamente toda a viagem entre ele e o motorista. Eles falavam sobre suas paixões por motocicletas, sobre o trânsito e coisas assim.  Somente depois que o passageiro foi deixado em seu destino, é que o motorista e eu retomamos nossa conversa.

Ele me perguntou sobre a saúde do meu pai, que estava internado num hospital de Porto Alegre, para onde eu estava indo.

Seguimos falando sobre família, trânsito, riscos e ele comentou que, entre outras funções, ele é diretor de armas de filmes. Eu perguntei o que faz um diretor de armas e ele me explicou: “é o especialista em armas que acompanha filmagens onde os atores usam armas de fogo. Esse especialista é responsável pela segurança dos atores e demais integrantes do set de filmagens”.

Me contou de certa feita quando alguns atores nacionais gravavam na serra gaúcha e o diretor do filme deu ordem para iniciarem a gravação de uma cena. “Quando o diretor gritou: AÇÃO, eu gritei: CORTA”, me contou o motorista do aplicativo. “Se eles seguissem com a filmagem da cena, mesmo usando munição de festim, o ator teria sido queimado devido à proximidade da arma em relação ao seu corpo”, complementou.

Segundo ele, foi preciso exemplificar, atirando com uma arma munida de festim, contra uma folha de papel, a uma distância considerada de risco. A folha chamuscou. Então, mesmo inconformados, o diretor e os atores aceitaram o corte imposto pelo especialista e filmaram a uma distância segura entre o ator e a arma.

Meu motorista também é membro da Polícia Militar e atuou por uns 20 anos nas ruas, sendo instrutor de armamento e tiro. Ele também me contou sobre uma gravação onde, monitoradamente, houve uso de munição real para manuseio no set de filmagem. Contou-me que fez uma breve preleção com os atores, dizendo a eles que atiraria contra qualquer ator que apontasse uma arma carregada com munição de verdade, para uma pessoa daquele set, ou em cena. Alertou-os de que estaria fazendo legítima defesa de terceiros, deixando bem claro a importância de uma instrução sobre armamento. Cada decisão tomada individualmente, no uso inadequado de uma arma de fogo pode gerar situações bem indesejadas.

Meu interlocutor lembrou daquela tragédia que envolveu o ator Alec Baldwin, há algum tempo. “Se aquelas filmagens contassem com um especialista em armas, aquela tragédia teria sido evitada, demonstrando a importância de um especialista, quando se trata de manuseio tanto de arma de fogo quanto de simulacro”, complementou o motorista do BlaBlaCar.

Fiquei refletindo sobre essa profissão que eu nem imaginava que existisse e em quantas outras por aí que a gente nunca ouviu falar e nas oportunidades de se criarem outras tantas.

Todos nós, ou a maioria de nós já teve que parar um dia para pensar no que queria ser quando crescesse. E, durante a trajetória profissional, muitas vezes tivemos que repensar, mudar os rumos da nossa jornada... Quem de nós já pensou em criar uma profissão, ou procurar algo diferente daquelas profissões básicas como ser professor, médico, construtor, engenheiro, bancário, etc?

Quanta gente está envolvida em cada elaboração de produtos, em cada serviço prestado. Quanta gente que não é reconhecida e nem mesmo percebida!

As crônicas de Nara - parte III

 




MÃE APARECIDA: a emoção de estar na Tua presença
Por Nara Maria Müller

Viajar e conhecer lugares novos é algo maravilhoso, não é mesmo? Alguns lugares são tão encantadores e nos provocam tantas emoções, que a gente até gosta de revisitá-los, de vez em quando.

No Brasil, um dos destinos que são frequentados e visitados, por mais de uma vez, é o Santuário de Aparecida, em São Paulo.

Era final do ano de 2019, quando, finalmente, eu fui conhecer o Santuário de Aparecida, em São Paulo. Era um sonho dos meus pais e um desejo meu e do meu esposo.

Bem cedinho, naquele domingo, 28 de dezembro, nós quatro saímos de Tramandaí em direção ao Santuário de Aparecida. Fomos de carro e paramos algumas vezes para descansar, comer alguma coisa ou contemplar as belas paisagens. Pernoitamos em São José dos Pinhais, no Paraná, num hotel simples, na beira da rodovia. Lembro que ficamos num quarto grande, com três camas de solteiro e um beliche.  Na manhã seguinte, após um gostoso desjejum, nós partimos para nosso destino e chegamos em Aparecida ao entardecer do dia 29. Na chegada à cidade, já se via as luzes da Catedral e um grande imagem de Nossa Senhora Aparecida, sobre um morro. Subimos as escadas até quarto andar, onde ficava nosso apartamento. O Iuri e o meu pai saíram para comprar pizzas para nossa janta, enquanto minha mãe e eu arrumávamos as camas e tomávamos banho.

Ao amanhecer de terça-feira, quando minha mãe e eu ainda estávamos dormindo, meu pai e o Iuri saíram para uma caminhada. Foram até o Santuário, tomaram um chimarrão no caminho e voltaram para o café da manhã.

Depois do café, nós quatro fomos até o Santuário – de carro, porque os meninos já tinham caminhado bastante e não era tão pertinho como parecia. Além disso, Aparecida é uma cidade com muitas ladeiras, que precisam ser vencidas para se chegar ao Santuário.

Lembro do Iuri mencionar o quanto meu pai tinha se emocionado ao ficar frente a frente com a imagem de Nossa Senhora Aparecida - aquela que foi encontrada no rio, pelos pescadores e que está dentro da Catedral. Eu pensei: “deve ser legal mesmo”, mas nunca imaginei o que eu mesma sentiria ao chegar nesse local...

Dentro da Catedral, nós rezamos um dos vários terços diários de Aparecida. Me chamou a atenção o fato de que,  a cada nova dezena eram convidadas dez pessoas dentre as que estavam na Catedral, para subirem ao altar e rezarem uma das Ave-Marias do terço.

Estávamos de frente para a imagem original da Santa, que fica num mezanino, dentro de uma espécie de sacrário dourado. Quem já visitou o Santuário, sabe que a Catedral é imensa e a imagem de Nossa Santa Padroeira parece pequena para quem está próximo ao altar.

Quando subimos ao mezanino, entramos numa longa fila de romeiros que paravam, por alguns instantes, na frente da imagem da Mãe Aparecida. Tudo calmo até ali. Na minha frente estava um casal bem jovem. Os dois conversavam e riam enquanto caminhavam, vagarosamente, seguindo a velocidade da fila. Atrás de mim estavam meus pais.

Quando chegou a vez do casal à minha frente contemplar a imagem, eles se abraçaram e choraram. Naquele momento, eu comecei a entender a emoção que meu pai sentira mais cedo.

A próxima da fila era eu e, ao olhar para aquela imagem da Mãe Aparecida, não me contive e chorei. Me voltei para trás e abracei meu pai e minha mãe, totalmente emocionada. Agradeci a Deus pela oportunidade que tinha me dado de estar ali com as pessoas que me deram a vida.

Quantas vezes, ao longo das nossas vidas deparamos coisas que nos impressionam, nos sensibilizam e nos fazem rir e chorar? Nesses momentos nós sentimos a presença do Deus criador, de Jesus, nosso irmão e de nossa Mãe amorosa!

quarta-feira, 15 de março de 2023

As crônicas de Nara - Parte II

 


O ROUBO DO PEIXE: falando o óbvio para evitar mal-entendidos

Por Nara Maria Müller

Quantas vezes a gente já teve a experiência de coisas que deveriam ter acontecido de um jeito, mas aconteceram de outro? Quantas dessas coisas que não saíram como imagináramos poderiam ter dado certo, não fosse por algum mal-entendido?

Mal-entendidos acontecem com mais frequência do que nós podemos imaginar. Acontecem na vida familiar, na vida social e no nosso trabalho.

Em 2007 meu marido e eu fomos morar no Canadá, na cidade de Londres, na província de Ontário. Chegamos em março de 2007 e voltamos ao Brasil em janeiro de 2008.

Conhecemos várias pessoas, fizemos bons amigos e, entre eles, o Zenon e a Mary-Anne.

Em dezembro de 2007, faltando um mês para voltarmos ao Brasil, Zenon e Mary-Anne começaram a nos levar para vários lugares que ainda não tínhamos conhecido, a fim de termos mais tempo juntos.

Numa noite gelada, com a neve caindo sobre a cidade, fomos jantar no restaurante McGuinnes. Eu escolhi um prato com peixe, batatas e legumes. O Iuri pediu alguma outra coisa, que não lembro mais o que era.

Eu tenho o hábito de comer devagar, saboreando a comida e o Iuri, em geral, devora seu prato, mais rapidamente. Quem não conhece, pelo menos uma pessoa que também come mais rapidamente ou que saboreia um bom prato de comida?

Num dado momento, a conversa estava empolgante e eu estava contando uma história para os amigos. Larguei o garfo e a faca por alguns instantes e conversava, fluente e alegremente com eles. Quando terminei minha fala, peguei novamente o garfo e a faca com a intenção de continuar a refeição, mas vi que o restante do meu peixe não estava mais ali. Perguntei: “tu comeste o meu peixe?” E o Iuri, vermelho de vergonha, respondeu: “eu pensei que tu tinhas parado de comer e resolvi me apropriar daquele apetitoso pedaço de peixe”. Eu fiquei bem contrariada – quem não ficaria? Aquele peixe estava mesmo delicioso!

Passados alguns instantes, todos caíram na risada e o Zenon disse para o Iuri: “tu perdeste alguns pontos com ela!”

Desde então, sempre que dou uma paradinha durante a refeição, aviso que pretendo voltar a comer o que está no meu prato.

Quantas vezes enfrentamos dores e dissabores por causa de um mal-entendido porque a gente acha que nossa intenção é tão óbvia que não precisa ser dita? Mas o óbvio precisa ser dito, sim!

Como é importante a gente se comunicar assertivamente, dizendo o que para nós parece óbvio, pois para o outro, pode haver um entendimento diferente, não é mesmo?

Tenho certeza de que todos conhecem alguma história como essa. Mal-entendidos podem se tornar motivos para boas risadas, como foi no meu caso, mas também podem causar problemas mais sérios...

Lembrem-se sempre disso: O óbvio precisa ser dito para que a gente não tenha o nosso “peixe” roubado.

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Pão 100% integral, com ou sem máquina de pão

 Há alguns anos, eu postei uma receita que se mostrou bem popular aqui no blog. Era uma receita de pão integral na máquina de pão. Mas usava 2/3 de farinha integral e 1/3 de farinha branca. No meu esforço para reduzir os refinados ao longo dos anos, eu consegui modificar a receita para funcionar apenas com farinha integral. Mas acabei, por falta de tempo, nunca postando a receita atualizada. Recentemente, nossa máquina quebrou. Por isso, eu tentei adaptar a receita para fazer no forno do fogão e me livrar daquela máquina gigante tomando espaço na nossa cozinha minúscula. Bom, a receita:


Ingredientes:

  1. leite, preferencialmente morno (250 ml)
  2. fermento biológico (2 col sobremesa rasas)
  3. açúcar mascavo ou mel (2 col sopa)
  4. ovo (1)
  5. óleo de oliva, girassol ou manteiga (1 col sopa)
  6. farinha integral (750 ml)
  7. sal moído (2 col sobremesa rasas)

Na máquina de pão:

Colocar todos os ingredientes na máquina, nessa sequência, e fazer o pão no modo normal (não precisa usar o modo integral). Depois de 3 horas, seu pão estará pronto e fofinho. Depois de desligar a máquina, eu deixo 5 minutos lá dentro para não murchar (ele cresce muito).

No forno:

Misturar os ingredientes [1-5] muito bem. Colocar a farinha, fazer uma covinha e colocar o sal. Mexer bem. Eu tenho que colocar um pouco mais de farinha nessa mistura para dar ponto. O ponto que eu gosto é aquele em que a massa não fica grudando na mão, mas a gente sente um pouco de umidade nela.
Deixar descansar por 20 minutos.
Ligar o forno no máximo, dá uma nova amassada e coloca numa forma untada e polvilhada. Desliga o forno, coloca o pão no forno para crescer por 20 minutos.
Liga o forno a 220ºC e assar por 40 minutos. Eu olho o pão e se achar ele muito branco, vou mantendo-o no forno ligado por mais 5 minutos. Depois de pronto, retiro do forno e aguardo esfriar um pouco antes de cortar.

Além de ficar pronto muito mais rápido, ele não fica tão alto, tem uma consistência mais firme, e não fica com o "umbigo", aquele buraco que a máquina de pão deixa onde fica a pá que faz a mistura. Dado que nossa cozinha agora é pequena, a máquina de pão foi para não mais voltar.


sábado, 22 de maio de 2021

Eu sinto muita falta tua (mas não conta para ninguém!)

 Minha sogra e eu tínhamos uma brincadeira. Quando falávamos ao telefone e estávamos há muito sem nos vermos, eu sempre dizia "Eu tenho uma coisa para te falar. Mas não conta para ninguém, porque pode arruinar minha reputação... Eu sinto muita falta tua." Nossa brincadeira era que seria vergonhoso para quem quer que seja admitir que gosta da sogra... Ela adorava quando eu contava piadas de sogra. Aquelas em que a sogra é uma jararaca que nenhum genro aguenta.

Tirei foto desse carro e mandei para ela com a mensagem "O cara pintou uma foto da sogra no carro!"

A verdade é que eu gostava muito dela. Hoje estamos há cinco meses sem ela, e ainda sinto sua falta. Espero que ela ainda esteja mantendo nosso segredo... Há um tempo atrás, colhi umas vagens de ingá, que é um feijão azedo mas com uma polpa doce. Acho que só nós dois gostávamos naquela casa. Tentei comer e não consegui... Também nunca mais comi sagu. Disse que quando ela morresse não comeria mais, porque eu gostava muito do dela, e muito pouco do sagu dos outros. Até agora minha profecia se concretizou.

Ela como gostava: rindo, no meio de gente e fazendo festa. Atrás, uma das paixões dela: o chope!
A saudade a gente não mata, dizia ela. Se cultiva. Se não sentimos mais saudades de uma pessoa, é porque não temos mais sentimentos por ela. E sentimentos assim como eu tinha por ela a gente não perde assim tão fácil. E com o sentimento, a saudade. A saudade dura muito. Mas o sofrimento é opcional. E eu opto por não sofrer, a maior parte do tempo. Às vezes sofro, quieto, não conto para ninguém. Como costumava brincar com ela: não conta para ninguém. Pode soar esquisito a pessoa sofrer de saudades da sogra... :-D

Ela espalhava tempero verde e felicidade por onde passava
Não é só do sagu que eu vou sentir falta. Para quem eu conto as piadas de sogra agora?






quinta-feira, 21 de janeiro de 2021


 Tributo à minha mãe

Por Nara Maria Müller




Minha mãe nasceu na localidade de Maragatos, no dia 17 de julho de 1935. Maragatos fica localizada no interior de São Francisco de Paula, com parte pertencendo à Rolante, no Rio Grande do Sul.

Quando ela completou 14 anos de idade, seu irmão mais velho lhe disse que a infância tinha terminado e que, a partir de agora, ela teria que trabalhar na roça, como os demais irmãos. Aos 15 anos, uma prima que era freira a convidou para ir morar na cidade de Rolante e trabalhar com ela, no hospital daquela cidade. Autorizada pelos seus pais e sob a responsabilidade da prima freira, a jovem Elly Theves deixou Maragatos para trás, aos 16 anos de idade.

Alguns meses depois, mudou-se para Taquara, indo trabalhar no então hospital das freiras: o Sagrada Família.

Trabalhou como auxiliar de serviços gerais e como auxiliar de enfermagem. Foi um tempo difícil, mas minha mãe sempre foi doce e carismática. Aprendeu muitas coisas e fez boas amizades.

E foi durante esse período que ela conheceu meu pai - Plinio Américo Müller, num baile de carnaval, em Taquara. Foi amor à primeira vista e os dois se casaram em 18 de maio de 1957. Meu pai trabalhava como vendedor/balconista numa ferragem e, quando eu nasci, em janeiro de 1959, ele decidiu que voltaria aos estudos para poder dar uma vida melhor aos filhos. Meu irmão, Eraldo nasceu em novembro de 1960.



Minha mãe e meu pai quando namorados


Meus pais, eu - meu irmão, Eraldo, na barriga da mãe

Meus pais viviam com poucos recursos financeiros, mas com muito amor e muitos momentos felizes. Sempre foram aventureiros, no sentido de aproveitarem as oportunidades que a vida lhes oferecia. Me recordo das muitas vezes em que, logo após o almoço, meu pai nos convidava para dar uma voltinha de carro e minha mãe deixava tudo sobre a mesa, coberto por uma toalha. A louça só era lavada na volta do passeio.

Quando eu completei 15 anos, e concluí o Ensino Fundamental, meu desejo era estudar à noite e trabalhar durante o dia. Meu pai não permitia porque eu era muito novinha para estudar à noite. Minha mãe decidiu fazer o Ensino Médio comigo. Eu achei muito legal, mas não sabia da real intenção dela: fazer com que meu pai me permitisse estudar à noite. Íamos os três juntos para o Colégio Santa Teresinha, meu pai era professor e nós duas, alunas.

Nos formamos em 1977 e meu pai foi nosso paraninfo. Que momento lindo para relembrar sempre!

Viveram juntos por 63 anos e 7 meses e constituíram uma família maravilhosa, com 4 filhos: eu, Eraldo, Ronaldo, Miguel, 4 netos: Douglas, Lucas, William e Bernardo, 2 genros, 3 noras (sim, os “ex” sempre moraram no coração da minha mãezinha e ela sempre morou nos corações deles).







































Em novembro de 2017 minha mãe sentiu uma tontura e teve um breve desmaio, na cozinha de sua casa, em Taquara. Meu irmão Ronaldo e minha cunhada Martha a levaram ao cardiologista e ela foi diagnosticada com arritmia cardíaca e possível mini AVC. Naquele período eu estava morando no Canadá, com meu marido Iuri. A família só me contou sobre esse fato, quando ela estava melhor e com consulta marcada no Hospital Ernesto Dornelles, em Porto Alegre, para o início de 2018.

A mãe foi internada no dia 23 de janeiro e ficou por alguns dias no hospital Ernesto Dornelles. Depois de uma bateria de exames, fizeram um procedimento para normalizar o ritmo cardíaco, mas não funcionou. Teve alta e soube que teria que continuar tomando os medicamentos para arritmia e o anticoagulante, para sempre. Aos poucos ela foi recobrando a normalidade, o apetite voltou, com o apoio dos meus irmãos, cunhadas e da esposa do meu ex-marido. Além, é claro, dos netos. Minha agonia por estar longe, aos poucos amenizava. Voltei para o Brasil em julho de 2018.

Eu costumava brincar com a mãe que ela recobrou sua felicidade depois que eu voltei do Canadá e ela concordava no mesmo tom de brincadeira. Era uma mulher alegre, amável que conquistou os corações de todos os felizardos que tiveram o prazer de conhecê-la.

Meu marido e eu concordamos em aproveitar cada minuto com ela e fizemos vários passeios, nós 4: meus pais, Iuri e eu. Fomos para Chuí, onde eles puderam rever lugares que tinham visitado há muitos anos, fomos a Laguna e Garopaba, em Santa Catarina e eles se apaixonaram por Garopaba. Voltamos a Garopaba para passar alguns dias com eles numa casa muito simples, à beira do mar e aos pés da igreja de São Joaquim. Tudo era alegria, tudo era bom!

Meus pais eram nossa melhor companhia para passeios, jantares e almoços em qualquer lugar e em qualquer situação.




Passamos juntos o final do ano de 2019, em Aparecida, São Paulo. Foi a realização de um sonho do meu pai, conhecer a Catedral de Nossa Senhora Aparecida e minha mãe ficou encantada por podermos estar lá. Ela adorou o museu de cera, com aquelas imagens tão semelhantes às pessoas que ela conhecia pela televisão.









Minha mãe sempre valorizou a nossa linda família, sempre nos considerou um exemplo de família para o mundo tão vazio de valores humanos. Ela dizia: “Eu tenho uma família muito bonita!”


Quando a gente falava em religiões, solidariedade e amor ela sempre dizia: “Tudo o que eu sei é que devemos ser muito bons nesta vida”.

À dona Elly todos recorriam para que os incluísse nas suas orações “fortes”, pois sabiam que ela era ouvida por Deus. Ela rezava todos os dias, uma série de Pai Nosso e Ave Maria pelas intenções de toda a família e amigos.

Anualmente, nos reuníamos com seus parentes: irmãs, sobrinhos, sobrinhos netos – todos descendentes dos meus avós maternos: Albino e Maria Theves. Esses encontros foram idealizados pelo meu pai, junto com um dos meus primos. Queriam se encontrar em momentos de festa e não apenas em velórios e enterros. O último encontro dessa grande família, que reunia em torno de 100 pessoas, aconteceu no dia 15 de março de 2020, um dia antes de ser declarado o distanciamento social por causa da pandemia do novo coronavírus.



Ao longo de 2020, minha mãe e todos nós nos cuidamos muito para não contrairmos o novo coronavírus. Queríamos preservar a saúde dos meus pais e, é claro, sairmos vivos ao final da pandemia. Meus pais e meu irmão Eraldo tinham decidido ficar morando na casa de praia, em Imbé.


Mas minha mãe começou a sentir uma tristeza e muita falta das festas. Ela sempre teve problemas com coceiras e isso se intensificou em 2020.  Ela vivia machucando os braços ao bater nas aberturas e trincos das portas e pensava que era por problemas da visão.

Proporcionamos cirurgias de catarata, com implante de lentes super especiais – um olho em 13 de maio e outro olho em 16 de setembro.

No dia 23 de setembro meu pai me chamou porque a mãe estava fraca e tinha caído na cozinha. Iuri e eu chegamos lá, à tardinha e ela estava sentada na sala, com uma certa confusão mental. Lembrei que o quadro descrito pela família em 2017 era semelhante e, imediatamente, a levamos para o hospital de Osório, onde a internaram com infecção urinária.

A reclamação da minha mãe era de dor na lombar e coceira. O que mais a incomodava era a coceira no corpo todo.

Começaram a tratar da infecção e deram cortisona para aliviar a coceira. Ela já tinha ido à dermatologista, endocrinologista, cardiologista, em Imbé e Tramandaí. Como o Iuri e eu moramos em Tramandaí, eu pude dar toda a atenção necessária aos meus pais, especialmente, à minha mãe.

Rapidamente, minha mãe foi melhorando e, como os olhos estavam 100%, estava lendo um livro sobre os botos de Imbé. Estava muito feliz e animada. Ficamos no hospital por 7 dias, até terminar o tratamento com o antibiótico e estar com a infecção urinária debelada.


A dor na lombar continuava então eu a levei ao traumatologista, em Tramandaí. Ela tinha dificuldades em ficar sentada por causa da dor e da alergia que fazia sua pele ficar ainda mais frágil. O médico pediu um RX, que fizemos na clínica mesmo e o resultado mostrou uma fratura na lombar. Ele pediu uma tomografia e receitou um medicamento para dor.

A dor foi diminuindo, mas as coceiras não. Marcamos a tomografia para 22 de outubro e, nesse dia minha mãe estava muito mal. A pele escamada, com prurido aquoso, dificuldade para caminhar e sentia muito frio. Esse frio já vinha sendo sentido há alguns meses. A pele machucada parecia queimada e quente e aquele frio terrível.

Eu a acompanhei na tomografia e, em seguida, nos dirigimos a Porto Alegre, para tentar uma internação no Hospital Ernesto Dornelles, que oferece mais recursos do que os hospitais do interior.

Foi internada e eu fiquei com ela por 10 dias. Estava com infecção no sangue, por Estafilococos Aurius. Diagnosticaram fragmentos de osso quebrado da lombar na medula, o que estava comprimindo seus nervos e dificultando seu caminhar. Por causa da pandemia, a dermatologista do hospital estava afastada e minha mãe não teve esse atendimento. Tudo que ela queria era curar a coceira. O resto, para ela não importava. Mas os médicos estavam empenhados em curar a infecção, monitorar o coração e em tomar alguma providência em relação à coluna.

Minha mãe me pediu: “Narinha, se eles não curarem minha coceira, eu não quero mais viver”. “Não quero cirurgia, não posso viver assim”. Eu cheguei a postar no Instagram e Facebook a necessidade de ter um alergista que viesse atendê-la no hospital, mas nenhum desses profissionais prestava esse serviço.

A cardiologista fotografou o corpo da minha mãe e mandou para a dermatologista afastada. Essa prescreveu uma medicação de alívio e um creme para passar no corpo.

Foram 10 dias com minha mãe no hospital. Ela não queria outra pessoa para acompanhá-la, a não ser eu porque sou a única filha mulher. Ela se sentia constrangida com meus irmãos, ou cunhadas. E eu me senti bem em poder estar com ela desta vez, já que estava tão longe, em 2018.

No dia 01 de novembro minha mãe teve alta e voltamos para sua casa em Imbé. Ela voltou usando um colete ortopédico e teria que usá-lo sempre que não estivesse deitada. Adaptamos uma cadeira para banho e, por algumas semanas eu ia, todos os dias para ajudá-la nessa ação de tomar banho e passar creme no corpo.

O cardiologista começou a atendê-la em casa devido à grande dificuldade que ela tinha para ficar sentada por algumas horas nas salas de espera.

Encontramos um dermatologista que foi o primeiro a pedir exames específicos que identificaram que ela não tinha alergia, mas uma doença autoimune. Começamos o tratamento e as medicações aumentavam. Criamos um sistema de caixinhas que eu preparava todos os dias, sempre para o dia seguinte. Assim, meu pai tinha mais facilidade em administrar os medicamentos nos horários certos.

Meu pai se dedicou, inteiramente aos cuidados com a mãe. Ele já vinha cuidando dela desde que foi diagnosticada com arritmia, em 2017, mas intensificou neste período. Ele lavava as roupas, fazia a comida, ministrava os remédios e passava a noite cuidando dela. Sempre que ela se coçava, ele limpava a pele dela e passava o creme. Meu pai emagreceu 7 quilos nesse período, entre setembro e dezembro.

E minha mãe foi ficando mais fraca, sua imunidade caiu muito. Estava tomando vitamina D, mas não conseguia ficar muito tempo ao sol. Usar o colete era horrível para ela, caminhar a cansava, ficar sentada na rua a congelava. Não sentia fome e não conseguia mastigar alimentos sólidos.

O cardiologista já tinha prescrito suplementos alimentares, minha cunhada nutricionista trouxe outros, iniciamos com um estimulante de apetite, mas nada mais parecia fazer efeito.

No dia 16 de dezembro, uma quarta-feira, meu pai e meu irmão Eraldo foram a Taquara resolver algumas questões e eu fiquei com a minha mãe. Em geral, quando estávamos sozinhas ela se portava melhor. Mas não foi assim nesse dia: ela não conseguia comer direito, sentia-se desconfortável, desviando o olhar do meu. Ofereci o jornal para ela, mas vi que ela só o folheava sem ler. Já há dias ela não se interessava mais em ler as mensagens do grupo da família no WhatsApp. Perguntei por que ela não aproveitava esses olhos que estavam enxergando tão bem e ela me disse: “Não sei, acho que é preguiça”. Ela estava cansada, só queira ficar deitada. E a gente não entendia bem esses sinais. Ou, quem sabe, não queríamos entender...

No dia 17 de dezembro o cardiologista veio consultá-la em casa e meu pai pediu aos meus 2 irmãos que moram em Taquara para virem acompanhar essa consulta. Pressentimentos...

Estávamos meu pai e meus 3 irmãos ao redor da mãe, que estava com 39,3º de febre, prostrada em sua cama. O cardiologista a examinou e constatou uma infecção nos pulmões.

“Essa infeção não estava nos nossos planos”, disse o doutor Christian. Prescreveu um antibiótico que deveria ser ministrado, imediatamente e a cada 24 horas por 5 dias. Minha mãe passou a noite gemendo ao expirar. Iuri e eu pernoitamos na casa dos meus pais para ajudarmos caso fosse necessário interná-la. O cardiologista ficou de prontidão e nos pediu para informá-lo sobre qualquer piora no quadro.

O dia 18 foi bem difícil, a mãe não conseguia comer, gemia sempre e dizia que não tinha dor, mas coceira em alguns pontos do corpo. À tardinha, meu marido mediu os sinais e constatamos que a temperatura, a pressão e a oxigenação estavam muito baixas. Iuri mandou mensagem ao doutor Christian que pediu um RX imediatamente. O único lugar com RX naquele horário era a Unidade de Pronto Atendimento – UPA, de Tramandaí. Iuri e eu a levamos e, por ser uma senhora de 85 anos de idade, com infecção pulmonar, a internaram na observação COVID.

Todos os dias nós levávamos as refeições, mas não podíamos entrar. As refeições retornavam quase intactas, mas os diversos médicos plantonistas diziam que ela estava recebendo soro e que não nos preocupássemos com o fato dela não comer. Não podiam liberá-la porque tinham coletado material para o teste COVID e agora era preciso esperar o resultado. Ela estava recebendo oxigênio, soro e os medicamentos que levamos.

Passamos o fim de semana, sempre esperando notícias boas e, quem sabe, a possibilidade de transferência da mãe para um hospital. Não havia vagas nos hospitais, cheios de pacientes com suspeita ou confirmação de COVID-19.

Segunda-feira, 21 de dezembro, o médico nos chamou para explicarmos, mais uma vez o caso da minha mãe. A nosso pedido, ele autorizou alimentação enteral e meu irmão Ronaldo comprou os suplementos para essa administração alimentar por sonda.

Em torno de meia-noite o médico nos chamou e disse que a situação era muito delicada. Minha mãe só respirava com auxílio do oxigênio e, na sua opinião, entubá-la só iria fazê-la sofrer ainda mais.

Essa notícia foi como uma bomba atirada contra nosso peito. O médico explicou que iria administrar um sedativo para que ela não sofresse e que só teríamos que esperar que o organismo dela reagisse, ou parasse. Ele tinha convicção de que minha mãe não tinha COVID-19, então nos deixou vê-la, usando os equipamentos de segurança necessários.

Estávamos lá, meu marido, eu e meu irmão Ronaldo. Nós a vimos, falamos com ela, mas ela não nos viu. Talvez nos tenha ouvido, quem sabe...

Em torno de 3h30min nos avisaram que ela tinha falecido. Meu irmão providenciou o traslado do corpo para ser sepultada em Taquara – sem velório, com caixão lacrado porque o resultado do teste ainda não tinha retornado.

E assim se encerrou a vida da minha mãezinha nesta terra. Nos despedimos dela no cemitério de Taquara, às 11h30min do dia 22 de dezembro de 2020, com a presença do meu pai, dos 4 filhos, dos netos e outras pessoas que amaram dona Elly.

O resultado NEGATIVO do teste COVID veio no dia 24 de dezembro, dois dias após a sua morte.

 

Mãe! Tu foste uma pessoa maravilhosa, doce, sempre disposta a ajudar a quem quer que fosse. Quando meus irmãos e eu éramos pequenos, tu nos cuidaste como bens preciosos enquanto o pai estudava e se esforçava para nos dar mais qualidade de vida, melhores condições de estudo e de desenvolvimento. Juntos, tu e o pai nos ensinaram os valores que pautam nossas vidas e construíram uma família tão bonita!

Tu cuidaste dos meus filhos e dos filhos dos meus irmãos para que nós pudéssemos desenvolver nossas carreiras e sustentar nossas próprias famílias.

Tu criaste um mundo de amor e alegria entre todas as pessoas que tiveram a felicidade e a graça de conviver contigo.

Tu foste minha parceira em vários eventos, gostavas dos chás, dos cafés e dos bingos que reuniam pessoas ao redor de uma mesa.

Tu, mãe és o exemplo de retidão, de bondade e de vida para todos nós, teus filhos, genro, noras e netos.

É assim que vamos sempre lembrar de ti, mãe amada!

Obrigada por teres aceitado ser nossa mãe! Nós te amamos, eternamente! Fica em paz na alegria de estar com nosso Pai Celestial, junto de Jesus e de Nossa Senhora!