sábado, 18 de março de 2023

As crônicas de Nara - parte V

 

Imagem de Lukas Kloeppel - Pexels.com


NEW YORK, NEW YORK – a cidade que nunca dorme

Nova Yorque, nos Estados Unidos é um dos destinos mais procurados por quem quer viajar para aquele país. Diferente de Orlando, onde fica a incrível Disneylândia, Nova Yorque é um destino especial para quem deseja fazer compras. Tudo o que tem de mais moderno, tanto no mundo da moda, quanto na tecnologia, parece ser lançado por lá, antes de ir para o resto do mundo.

O famoso cantor norte-americano, Frank Sinatra – falecido em 1998 - cantava, lindamente uma música que homenageia Nova Yorque: a cidade que nunca dorme.

Nova Yorque também foi o palco da conhecidíssima série Friends, que agitou o mundo durante suas 10 temporadas. Quem não lembra do Café Central Perk e do charmoso apartamento da Mônica Geller?

Não sei vocês, mas eu sempre sonhei em conhecer Nova Yorque, ver a Estátua da Liberdade, badalar pela cidade, visitar o Central Park e, é claro, fazer compras.

Bem...eu preciso contar que estive duas vezes em Nova Yorque, mas nenhuma dessas visitas teve o glamour que eu esperava. O máximo que eu consegui comprar por lá foram alguns cafés, uma banana, uma maçã, talvez um donut¹ e um chocolate.

Minha primeira viagem a Nova Yorque

Meu marido costumava participar de congressos científicos nos Estados Unidos, uma ou duas vezes por ano e eu nunca tinha oportunidade de acompanhá-lo devido ao meu horário de trabalho. Mas num dado momento da vida profissional, eu resolvi me tornar dona do meu tempo. Minha primeira viagem aos Estados Unidos, com o Iuri foi em novembro de 2015, para Seatle. Como eu decidi meio em cima da hora, não consegui mais viajar nos mesmos voos que ele, nem na ida e nem da volta. Cheguei um dia depois dele e voltei um dia antes. E o voo de volta tinha uma parada em Nova Yorque. Eu chegaria ao aeroporto da cidade que nunca dorme, às 5 horas da manhã e meu voo para o Brasil sairia somente às 22 horas. Um dia inteiro em Nova Yorque! Seria essa a minha grande oportunidade?

Como eu já tinha concluído duas formações em Coaching e queria publicar uma reportagem numa revista especializada, aqui no Brasil, eu programei uma entrevista com um coach novayorquino. Nos encontraríamos num Co-working, mas um dia antes de eu chegar ele cancelou o encontro por motivos de saúde na família. Fiquei chateada, mas compreendi a situação e a entrevista aconteceu por e-mail.

A viagem de Seatle até Nova Yorque foi muito cansativa e, ao chegar, imediatamente tentei embarcar minha mala grande, mas como meu voo seria somente muito mais tarde, não me permitiram fazer o checkin. Aliás, eu não podia nem ter acesso à parte nobre do aeroporto. Tinha que ficar ali, no andar térreo, até, pelo menos às 17 horas. Procurei um lugar para guardar as malas. Pensei em dar um passeio pela cidade, mas o guarda-malas só abriria lá pelas 7h30min e não aceitava pagamento em cartão de crédito. Eu não tinha sequer um dólar em espécie e os saques pelo cartão de crédito eram proibitivos, dado o valor absurdo da taxa cobrada.

E lá estava eu, com sono, com fome e com aquelas duas malas: uma grande, aquelas de 32 quilos, sabem? A outra era um pouco menor e ainda tinha mais uma mochila com meu netbook e outras coisinhas. Eu sentava aqui, sentava ali, me escorava sobre as malas e cochilava um pouco, procurava, em vão, um lugar onde pudesse acessar uma rede wifi. Imaginem só, a minha situação de estar longe do meu mundo conhecido e sem qualquer meio de comunicação com esse mundo! Eu estava incomunicável com qualquer familiar e aquele lugar era horrível, cheio de pombos comendo as migalhas de comida pelo chão, fazendo suas necessidades em qualquer lugar. Taxistas e motoristas de Uber discutindo, gente andando para lá e para cá. Ao longo do dia eu tomei uns dois cafés pequenos – quem conhece os cafés pequenos nos Estados Unidos sabe que são grandes para nossos padrões. Por lá, eles não têm nem ideia do que seja um “cafezinho”. Vocês conseguem imaginar isso?  Comi uma banana daquelas enormes, pagando 1 dólar, cada, depois foi um biscoito, um sanduíche, uma maçã... Pelo menos as cafeterias aceitavam cartão de crédito.

Fiquei 12 horas naquele submundo de Nova Yorque, indo ao banheiro com toda aquela bagagem... Um sufoco. Sabem como são aquelas cenas daquelas comédias em que os protagonistas são expostos a situações estressantes e se metem em trapalhadas? Pois bem, assim foi o meu dia em Nova Yorque.

Finalmente, às 17 horas eu fui para o paraíso do aeroporto, pude subir para a área nobre e fazer o checkin. Me liberei da mala grande e entrei numa lojinha perguntando para a atendente onde eu conseguiria acesso à rede wifi. Precisava mandar notícias para o Iuri e para a família. Nos aeroportos brasileiros a gente tem internet grátis, pelo menos por uma hora. Mas não era o caso lá em Nova Yorque. A moça disse que eu não encontraria wifi gratuito no aeroporto. Eu contei meu drama para ela que, compadecida, pediu que eu lhe entregasse o meu celular. Discretamente, ela digitou a senha da loja, cuidando para o proprietário não ver. Fiquei tão agradecida que até comprei um chocolate na loja. Sabem quando a gente tem aquela sensação de ter sido salvo e que deve sua própria vida a alguém? Saí dali e me sentei no lugar mais próximo, onde ainda conseguia manter o acesso à internet. Toda a família estava preocupada com a minha falta de notícias o dia inteiro, mas tudo acabou bem. Embarquei no meu voo para o Brasil e viajei até São Paulo. Acho que dormi a noite toda!

No aeroporto de São Paulo – não lembro se era Guarulhos ou Congonhas, eu encontrei o Iuri que pegou um voo umas 12 horas depois de mim, mas não teve que ficar aquelas horas todas preso no porão do aeroporto de New York.

Enfim, quando a gente faz coisas sem planejar antecipadamente, tem que se contentar com o resultado, que, nem sempre é tão glamouroso quanto poderia ser.

 

Minha segunda viagem a Nova Yorque

Maio de 2019, nossa última viagem internacional antes da pandemia. O destino era Boston, nos Estados Unidos, onde Iuri e eu participaríamos de um congresso de Administração.

Nossa primeira parada foi em Nova Yorque, aonde chegamos em torno de 10 horas da manhã. O voo para Boston só sairia às 17 horas, mas deveríamos tomar um trem para ir de um aeroporto para o outro. A estação era bem pertinho do Central Park e o Iuri me convidou para dar uma caminhada até o parque. Cada um de nós carregava uma mala daquelas grandes e duas bagagens de mão. Eu recusei o convite pois já sabia como era ruim caminhar por horas puxando aquela bagagem toda. Então ele me convenceu a dar uma caminhada por algumas quadras e acabamos fazendo um lanche, ao meio-dia, num Mc Donalds. A refeição demorou mais tempo do que prevíamos e o tempo ia passando. Caminhamos o mais rápido possível até a estação e o Iuri correu até a bilheteria, enquanto eu fiquei pertinho dos portões com as duas malas grandes e as bagagens de mão. Assim, ele poderia correr por dentro da estação, que era enorme. Ele demorou um tempão até retornar e me entregou meu tíquete. Correu com as suas malas e bagagens e cruzou a catraca. Eu passei o tíquete, mandei as duas malas e a catraca trancou. Para passar para o outro lado, eu precisaria de outro tíquete e não dava mais tempo de voltar e comprar. Fico pensando em quantas pessoas já passaram por esse infortúnio que eu estava passando. Seria eu a única tola no mundo?

O Iuri, apavorado me disse: “pula por cima da catraca!” Eu dizia que não pularia, pois haviam seguranças olhando e eu não queria ser presa em Nova Yorque. Mas a pressão era grande e eu pulei sobre a catraca, sob os olhares dos seguranças. Acho que eles ficaram penalizados e fizeram de conta que não tinham visto. Mas eu lembro de dizer para o Iuri que ele não deveria ter feito isso com uma mulher de 60 anos de idade. Hoje eu me arrependo de não ter deixado ele tirar umas fotos daquela cena, porque deve ter sido muito engraçada!

O ônibus atrasou, nós atrasamos e perdemos o voo para Boston. Ficamos sabendo que havia um voo cancelado naquele mesmo dia e que a lista de espera por vagas nos próximos era imensa. E, é claro, os passageiros do voo cancelado tinham prioridade. Nos aconselharam a ficar num hotel e voltar na manhã seguinte, mas nós tínhamos que estar em Boston, na manhã seguinte. Além disso, como professores universitários, nossas verbas eram restritas e todos os gastos extras estavam fora de cogitação.

Acho que conseguimos despachar as malas grandes e ficamos somente com as duas bagagens de mão - cada um de nós com as suas. Entramos na sala de embarque e, a cada voo para Boston, ficávamos aguardando a possibilidade de embarcarmos. Pensem numa mulher furiosa com o marido! Essa mulher era eu. Mais uma vez, Nova Yorque tinha sido hostil comigo.

Lá pelas tantas o Iuri me perguntou se eu queria um lanche e eu disse que não queria coisa alguma. Ele foi comprar algo e me trouxe um chocolate. Nem lembro se eu aceitei ou não – hehehe.

Era quase meia noite quando anunciaram a partida dos dois últimos voos para Boston. Iuri conseguiu vaga num deles e eu no outro.

As viagens são assim mesmo. Mesmo planejadas, às vezes surgem infortúnios, mas o jeito é encarar com leveza que tudo dá certo no final.

O engraçado é que quando a gente sabe que alguém vai viajar para o exterior, costuma pensar que tudo será maravilhoso, não é mesmo? E, na maioria das vezes, mesmo que algumas coisas deem errado, dificilmente eles nos contarão.

¹Um donut, doughnut, dónute, rosca ou rosquinha é um pequeno bolo em forma de rosca, popular nos Estados Unidos e de origem incerta. Consiste numa massa açucarada frita, que pode ser coberta com diversos tipos de cobertura doce e colorida, como por exemplo chocolate. Wikipédia

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